Podcast Temporada 02 - Ep. 02

Tempo Rei

Duração aproximada: 57 min

[00:00:00]

 

<<<<< Narração >>>>>

É muito desafiador entrar hoje no estúdio para gravar essas histórias diante desse segundo turno para a presidência que vem por aí. Este podcast contém algumas histórias difíceis, porque para barrar a violência, o primeiro passo é falar sobre ela. Mas ó, a gente nunca vai deixar você embora de um episódio sem pensar em soluções coletivas. Então vem com a gente. 

 

[00:00:29]

 

<<<<< Narração >>>>>

Ato 1: Tempo é dinheiro? 

 

Perdi um aniversário. 

Pedi mais hora extra. 

Eu deixei minha mãe sozinha no hospital. 

Comi um salgado no almoço. 

Trouxe meu filho pra oficina. 

Outro ano sem férias. 

Vou mandar ele pra avó. 

Queria ter uma faculdade. 

Eu preciso fazer os meus exames. 

Já tem panetone no supermercado. 

De novo e de novo.

Já tem panetone no supermercado. 

Vou comprar.

Quando eu chego, o menino tá dormindo, mas de manhã ele come.



[00:01:13]

 

<<<<< Narração >>>>>

Eu sou a Luiza Akimoto e esse é o Cria Direito, podcast que discute a proteção às infâncias e adolescências, especialmente na luta contra os abusos e assédios. A gente olha para a aplicação do direito no território e na vida real. Como será que as leis atuam de fato na vida das crianças, adolescentes e todos ao redor? O início da temporada tratou do aborto legal, lei que protege crianças e adolescentes depois dos abusos. Ali a gente entendeu que esse direito muitas vezes é questionado por quem não quer defender as infâncias de fato, mas sim utilizar essa bandeira em benefício próprio, por votos, por exemplo.Vamos seguir aqui para tratar um pouco de trabalho e a regulação dele. Parece coisa de gente grande, né? Mas influencia diretamente a segurança das nossas crianças.

[00:02:05]

<<<<< Narração >>>>>

Você tem tempo para crescer junto com as suas crianças? 

 

A base de diálogo do episódio passado era: aborto legal e lei do ventre livre. Então agora a gente traz para a conversa a lei da abolição da escravidão em 1888 e o fim da escala 6×1. Essa discussão super atual. A escala de trabalho regula também a presença junto às nossas crianças, da vacina às noites sem dormir, passando pela ajuda na tarefa de casa. Aquele turno anda ocupando o lugar das horas de conversa, o olho no olho, a construção de vínculo. 

 

E afinal, você acha justo a forma como você trabalha hoje? Você deseja que as crianças cresçam para se dedicar na mesma rotina? 

 

Ah, e se o assunto é difícil, Cria Coragem.

 

<<<<< Sons relacionados ao trabalho: digitação, fábrica, obra, ônibus, celulares tocando, aplicativo soando >>>>>



[00:03:29]

 

<<<<< Entrada Ficção >>>>>

As meninas que Nina conhecia chamavam aqueles caderninhos rabiscados de diário. Nina não, ela chamava de manual. Era seu mapa e nele estavam suas instruções. Com ele, Nina falava sempre o que precisava. Seu confidente, ritual, refúgio onde se escondia. Nina mexia nele com cuidado. O manual já estava muito usado. Calculou com os dedos. Se agora ela tinha 16 anos e começou ele com uns… 12, já eram quatro anos de escritos. 

 

Era ouro, e ela sabia disso.Estava nervosa, ansiosa, tinha recebido o título de presidenta do Clube 13 de Maio, clube que fundou com seus amigos. Na página totalmente nova escreveu, presidenta. Agora sabia que essa palavra existia com nome de mulher. Para acalmar a ansiedade, como sempre fazia, resolveu rever as páginas desde a primeira e leu em voz alta algumas notas que considerava importantes.

 

Página 1: Laudelina Campos de Melo. Manual de Instruções. Poços de Caldas. Junho de 1916. Hoje tive que me despedir do grupo escolar. Vou manter esses escritos aqui para nunca me esquecer das letras e da matemática. Se sobrarem páginas, anotarei também as receitas de doces e fórmulas para lavar a roupa branca, pois mãe não estará comigo no trabalho. 

 

Página 10: 12 de Outubro de 1918. É meu aniversário. Vó Chiquinha me deu de presente uma muda de boldo e uma cantiga. Ela ensinou ainda que sempre que precisar de proteção, pode chamar Santa Bárbara, estourando feijão fradinho. Nunca falha.

 

Página 13: Maio de 1919. Achei uma foto aqui no jornal. É de Madame Walker, que faleceu este mês. Ela morava nos Estados Unidos e era preta como eu. Muito rica, tinha uma loja de creme para cabelo e outras coisas que deixavam as pessoas pretas bem bonitas. Usava vestidos e pérolas. Se um dia eu tiver uma filha, vou contar para ela essa história e juntas vamos nos arrumar que nem a Madame Walker. 

 

Página 15: 20 de outubro de 1920. Sempre bater de volta.Quando nos calamos, apanhamos mais do que quando reagimos. 

 

[00:06:12]

 

Voz de Laudelina de Campos Melo

Meu nome de nascimento, Laudelina de Campos Melo. Data de nascimento, 12 de outubro de 1904. Poços de Caldas, Minas. 

 

[00:06:27]

 

<<<<< Narração >>>>>

Nessa ficção, a gente relembra um pouco da infância de Laudelina de Campos Melo, ou Dona Nina. Trabalhadora doméstica desde os sete anos, ela foi uma das primeiras a organizar a luta sindical dessa classe no Brasil. Laudelina e suas parceiras enfrentaram muita resistência. E o papo dela era sobre direitos básicos, reconhecimento da profissão, descanso entre as jornadas de trabalho. 1936 e, de certa forma, ela já estava lutando pelo fim da escala 6×1.

 

Quando a gente escolhe te contar a história de conquista dela aqui no podcast, a gente também faz uma conexão difícil, mas necessária de ser dita em voz alta. O trabalho doméstico, ou seja, cuidado da casa, limpeza, criação das crianças, é também um dos principais elos de uma corrente que liga os nossos dias atuais àquele Brasil escravocrata. 

 

Notícia de Jornal

Sônia Maria de Jesus, de 50 anos, foi resgatada em uma operação do Ministério Público do Trabalho no dia 6 de junho. Ela foi levada para um abrigo em Santa Catarina. Ela foi levada ainda criança, aos 9 anos, sem autorização expressa da família dela. 



[00:07:48]

 

<<<<< Narração >>>>>

Liberata. A gente conta essa história lá no episódio anterior. Uma menina negra de 10 anos, escravizada em Florianópolis em 1790.

Sônia Maria de Jesus. Uma menina negra de 9 anos, escravizada em Florianópolis em 1982. Inaceitável. Aterrorizante. Acontece que só para acrescentar absurdos nessa história do Brasil, Podemos começar com o direito que Liberata tinha, o que fez toda a diferença. Liberata, no século XVIII, mesmo antes da lei do ventre livre, exerceu a liberdade que tinha de se comunicar. E foi assim que ela processou seus patrões e ganhou. Conquistou nos tribunais sua própria alforria e de seus filhos. Já Sônia… Em pleno século XX, ainda criança, ela foi trazida para a casa onde viveu em condições análogas à escravidão e com uma deficiência, a surdez. Sônia teve o seu direito de se comunicar do seu modo negado.

Nos quase 40 anos em que Sônia foi mantida reclusa, dando conta de todos os serviços domésticos, Sônia nunca teve acesso a nenhum sistema de educação e sequer aprendeu Libras, a língua brasileira de sinais. Ela foi resgatada dessas condições em 2023, sem salário, férias ou qualquer direito trabalhista. Quando nas entrevistas perguntavam se ela sabia quais eram os seus direitos, ela sequer entendia o que esse gesto-palavra significava. Silenciamento. Violências dentro do âmbito do privado, do doméstico, sem ninguém ver. 

E atenção que essas sempre foram também estratégias para violência sexual, especialmente contra crianças e jovens. Seguem sendo estratégias e atuam muito sobre as crianças com deficiência, algo pouco discutido. Isso não é nenhuma coincidência, não.O ocultamento da intimidade do lar que manteve Sônia presa e incomunicável reproduz e garante estruturas idênticas àquelas que perpetuam abusos e assédios.

[00:10:05]

Acontece que Sônia trabalhou para diferentes gerações da mesma família branca, transferida, como um bem, à casa onde ela se encontra hoje. Sim, enquanto a gente grava esse podcast, Sônia continua reclusa na mesma casa, sem poder se comunicar com seus próprios familiares. 

Essa última casa para onde ela foi encaminhada é a casa de um desembargador, um jurista formado, letrado, que, portanto, conhece as leis. Jorge Luiz de Borba, dono da casa onde Sônia viveu e vive, além de desembargador, possui pós-graduação em Direito do Trabalho. 

Para falar sobre a proteção da criança e do adolescente no Brasil, é preciso olhar para o trabalho doméstico e a lógica escravista que ainda ronda essa função. Depois do seu resgate, Sônia teve contato novamente com a família Gaioto de Borba, que a escravizou.

[00:11:07]

E sem saber se comunicar, sem pistas do mundo exterior ou do que estava acontecendo, supostamente escolheu regressar àquela casa. O defensor público federal William Charley descreve que essa reescravização representa um enorme retrocesso na lei brasileira e abre um precedente perigosíssimo. 

Não podemos voltar para trás. 

 

Voz de Benedita da Silva

A assinatura da chamada abolição da escravidão não garantiu terra, trabalho digno, educação, moradia e reparação para o povo negro que construiu esse país com suor, dor e resistência.E uma das batalhas mais importantes da classe trabalhadora hoje é o fim da jornada 6×1. Defender trabalho digno, descanso e qualidade de vida também é combater o racismo estrutural. O 13 de maio precisa ser mais do que memória, precisa ser compromisso com direitos, reparação e igualdade racial. 

 

Entrevistado – Bruno Lima

E o 13 de maio é uma data que está dizendo da infância, está dizendo o seguinte, do Brasil. Vocês serão exploradas até a morte sem conhecer um fiapo de dignidade no que depender de mim, Estado. 

<<<<< Narração >>>>>

Ato 2. Criança não trabalha.

 

Entrevistado – Bruno Lima

A abolição da escravidão foi anteontem. Todo mundo lembra do Pelé ganhando a Copa do Mundo em 1958, quando ele faz aqueles gols contra a Suécia e soca o ar naquele gesto que é lindo da emancipação negra. A gente está mais longe da Copa de 58 hoje, em 2026, do que estava Pelé para a abolição da escravidão. E a Copa de 58 a gente conhece, teve gente que viu. Do mesmo jeito, Pelé conhecia a gente que viu a escravidão. 

 

<<<<< Narração >>>>>

Esse que ouvimos aqui é o Bruno Lima, doutor em Direito pela Universidade de Frankfurt e especialista em Luiz Gama. 

 

[00:13:25]

 

Voz de Alícia Peres – Diretora de Cria Coragem

O que é uma conexão importante desse nosso episódio aqui?

Luiz Gama, esse menino negro que nasce no século XIX, nasce livre. e é re-escravizado pelo pai, vendido pelo pai biológico. Muito cedo na sua vida, ao redor dos 16 anos, ele tem acesso às leis, ao que são as leis, ele entende a ilegalidade da sua escravização e ele abre um processo para conseguir a sua própria alforria. A gente está fazendo a conexão de Luiz Gama, filho de Luísa Mahin. E não à toa, esse episódio vai falar também de trabalho doméstico aqui no Contemporâneo. 

 

Luísa Mahin, mãe de Luís Gama, é uma mulher escravizada em contexto de serviços domésticos. 

 

[00:14:12]

Entrevistado – Bruno Lima

E uma das coisas que a Lei 3.353, de 13 de maio de 1888, que é a Lei Áurea, faz é… jogar no desamparo milhões de pessoas em sua mais tenra e primeiríssima infância.

E é parte do projeto de apagamento da luta anterior e deste limbo que se gera em 1888 que nós não escutemos a história de Luiz Gama, nem a história… de muitos meninos e meninas, negros e negras, que conquistaram a sua liberdade e foram vitoriosos e vitoriosas em suas demandas, lutas, batalhas de todos os dias e todas as horas. Então, gerações não tiveram acesso a um livro, a uma biblioteca, a uma sala de aula, a uma vida digna. Tão falado o Luiz Gama, eu acredito que é a melhor maneira que eu conheço para recuperar todo um legado de luta que faz a abolição no braço e toda uma linha de pensamento que revela que a abolição ainda não se deu.

[00:15:28]

 

Entrevistada – Irene Rizzini

Não se falava disso, não se falava dessas questões raciais absolutamente, era como se isso era uma história do passado, isso já foi resolvido, a abolição foi feita, não precisa mais disso aí, o Brasil já superou isso, agora temos que nos tornar esse país moderno, culto e civilizado. 

Sou Irene Rizzini. professora do Departamento de Serviço Social da PUC-Rio e diretora do Ciesp, que é o Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância, em associação com a PUC-Rio. Mas e essa população, essas crianças pelas ruas, essas crianças soltas, né? Educação é uma coisa muito recente, educação pública no nosso país é muito recente. Não tinha educação, escola pública para essa população. Então, uma das soluções não foi a única, né?A gente tem sempre que olhar muitos aspectos de uma mesma história.

[00:16:29]

Mas uma importante, até porque era um número expressivo de pessoas que iam chegando e que depois da abolição da escravatura não tinham como sobreviver. Tinham que se profissionalizar, entrar nas fábricas, que era a era das fábricas. e precisavam de outros conhecimentos, principalmente todos aqueles que vieram da lavoura, do campo. Aí é que surge toda a questão urbana que coincide com a ascensão do capitalismo. A ascensão do capitalismo é o que levou fortemente a pressão do Brasil a eliminar a escravatura para poder remunerar a força de trabalho de alguma forma.

<<<<< Narração >>>>>

Uma escravidão que ao invés de terminar se atualiza, se esconde, mas também se renovam os nossos papos e as nossas estratégias para combatê-la. 

[00:17:31]

Entrevistado – Vagner Souza

Sabe, a gente estava conversando esses dias, falando assim, né? Ah, como é que foi sua infância, sua adolescência?

E aí a gente foi se dando conta que o que a gente chama de adolescência a gente não teve, né? Começa a trabalhar com 10 anos na feira, então a infância, uma parte dela já foi para o vinagre, né? E aí, daí para frente, só trabalho. Só trabalho, trabalho, trabalho, trabalho. 

<<<<< Narração >>>>>

Esse é o Vagner Souza, o Vagnão. Educador e um dos fundadores do Sarau da Brasa. 

Ele oferece a consultoria e divide vivências aqui no nosso podcast. Aqui ele traz uma experiência da própria infância, nos anos 90, para a gente pensar junto como essa lei da abolição se deu ou não na prática. 

 

[00:18:14]

Entrevistado – Vagner Souza

Na feira, tinha uma coisa lá. Trabalhava aí um outro moleque na feira. Eu tinha 10, ele devia ter 11, sei lá, uma parada assim. 

Voz de Alícia: Que ano era isso, mais ou menos?

Vagner: 90. Não, 94. A gente trabalhava na feira, tinha um cara lá que era o dono da banca e tal. E era uma banca que tinha várias frutas. E aí a gente ganhava, sei lá, 5 reais por dia. E aí o cara parou de pagar. O cara não pagava. Chegava no final do dia e ele falava assim, ó, leva aí uma dúzia de laranja. Eu falava, mano, a gente não tá muito aqui pra isso, né? E ele deixava a gente na feira sozinho lá, várias vezes, fazendo trampo, né? Tá errado, né? A gente tá aqui vendendo e não vai ganhar nada. Aí a gente falou assim, putz, mano, então assim, vamos começar a vender umas paradas e… Não vamos nós dar o dinheiro, né? Ninguém sabe quantas laranjas tem aqui, né?

[00:19:03]

Aí começamos, mano, vender laranja. E a gente começou a oferecer mais laranja que qualquer outra coisa, né? Só que chegou uma hora que eu falei assim, mano, acho que tá errado essa porra. Nós estamos roubando o mano, né? Só que aí foi louco, porque aí eu continuei conversando com meu pai sobre essas coisas.Ele falou assim, mano, isso aí não é roubo, isso é justiça. Eu falei: “Mas diz que é crime.” Ele falou: “Crime é crime, justiça é justiça, mano.” 

Explicando pra gente, muito pequenininho assim, que noção de lei pra gente não queria dizer justiça. 

[00:19:33]

<<<<< Narração >>>>>

Neste episódio, focamos em trabalho doméstico, um universo majoritariamente feminino. Mas os homens também estão afetados pelas lógicas trabalhistas que atualizam a escravidão no dia a dia.

Se as mulheres estão sendo exploradas dentro de casa, os caras ocupam mais os carros de aplicativo, as entregas em motos, e representam 90% dos resgates de trabalho análogo à escravidão no Brasil. Interessante, então, ouvir o Vagnão falar da construção de direitos com o pai, ali no trabalho na feira, identificando, discutindo junto e resistindo a essas práticas de exploração. 

 

[00:20:15]

Entrevistada – Keila Grinberg

O trabalho doméstico é justamente esse lugar onde as mulheres, as meninas, elas trabalham desde muito pequenas, vão aprendendo entre 500 mil aspas, porque a ideia que se passava a elas era justamente esse, que ela tinha que aprender a ser empregada doméstica, e ao mesmo tempo lugar onde elas vão sendo abusadas sexualmente desde muito novas. 

[00:20:39]

<<<<< Narração >>>>>

Você lembra dela? Da professora Keila, ela que revelou para o mundo os processos e a história da Liberata. Ouve lá no primeiro episódio. 

 

Entrevistada – Keila Grinberg

Essa presunção de que aquela menina está ali para servir em todos os âmbitos possíveis, ela vem da escravidão. e ela vai ser regulada muito recentemente.A PEC das Domésticas, que é uma emenda constitucional de 2013, que virou uma lei complementar, estamos vendo aqui, em 2015, que é quando é o início dessa… regulamentação, mas é o final dela que inclusive estabelece por exemplo que quando a pessoa vai dormir no serviço, ela tem que ganhar hora extra por todas aquelas horas dormidas que gerou fúria entre senhoras.

[00:21:37]

<<<<< Narração >>>>>

Gerou muita fúria entre os senhores também, né professora Keila? Existem análises que, inclusive, conectam essa fúria ao impeachment da única presidenta mulher que esse país já teve. A PEC das Domésticas foi aprovada em julho de 2015. O processo de deposição do governo Dilma se inicia naquele mesmo semestre. Parece que foi a gota d’água para alguns desses senhores. 

 

[00:22:07]

Entrevistada Mariana Fideles (Fifi)e Léia Chrif de Almeida       

Voz de Alícia: Eu preparei aqui uma coisinha pra gente, por favor. 

Voz de fundo: Que gostoso, que lindo. 

Voz de Alícia: Apoia, fiquem à vontade. Pode pôr nas cadeiras a bolsa. Vai tirar umas férias boas, amiga? Vai tirar? 

Voz de Fifi: Boas assim…É insuficiente pra minha exaustão. É, meu boy, ele trabalha seis por um. Então, quando chega as férias dele, eu, tipo, tento casar tudo, porque… A gente quase não se vê, né? Seis por um, estamos aí nesse debate. 

Bom, eu sou Mariana, também conhecida como Fifi, sou advogada, realizadora e pesquisadora na Observatória de Direitos da Dania da Mulher. 

Eu sou a Léia, sou geógrafa e pedagoga.

[00:22:53]

 

<<<<< Narração >>>>> 

A Fifi e a Léia criaram um guia dos direitos das trabalhadoras para organizar as informações sobre a PEC das domésticas. Porque o texto do direito nem sempre é acessível para todas nós. Isso é tão complexo que elas criaram um grupo de WhatsApp para comunicar esses códigos de como traduzir documentos e burocracias para pessoas no cotidiano real. 

 

[00:23:17]

Entrevistada Mariana Fideles (Fifi) e Léia Chrif de Almeida       

Então a gente olha para essas especificidades do trabalho e pensa, vamos fazer um guia, porque como elas vão adquirir esses direitos e como elas vão… impor esses direitos.Aí a gente repensa esse formato e cria o zap zap das domésticas, que aí são shorts vídeos, vídeos curtos, que trazem esses direitos e a gente faz aí uma lista de transmissão e começa a criar essa outra dinâmica de informação.

No trabalho doméstico, acho que quando a gente fala de violência contra a mulher… Os números são alarmantes já dentro de casa, são seus pares, seus irmãos, seus maridos, né, aí já há uma consciência social que isso, que normalmente o seu agressor é quem tá ao seu lado, né, e eu acho que o trabalho doméstico, por perpetuar essa intimidade, né, lógico que… a pessoa que tá ali, ela tá mais sujeita, às vezes não tem alguém que tá trabalhando com ela pra ser uma testemunha. O que a gente fez no Zap Zap foi fazer um vídeo específico sobre o assédio, né? E o assédio moral e o assédio sexual, porque os dois são assédios, não precisa… Ter a conotação só sexual, mas uma coisa que te constrange, te diminui também é assédio.

E usar o celular como ferramenta, porque muitas vezes você está ali isolada, então a gente… traz mecanismos de defesa. Então, acho que isso a gente precisa se fortalecer em coletivo para conseguir que essa pessoa sozinha dê cabo dessa denúncia, porque é uma denúncia individual. 

<<<<< Transição Sonora >>>>>

Entrevistada Mariana Fideles (Fifi) e Léia Chrif de Almeida       

Então a economia do cuidado… 

<<<<< Narração >>>>> 

Economia do cuidado são todas aquelas funções que sustentam as casas particulares, os lares, de pé. Lavando, passando, varrendo, cozinhando e também cuidando das crianças daquela casa enquanto os adultos saem para trabalhar fora. 

[00:25:18]

Entrevistada Mariana Fideles (Fifi) e Léia Chrif de Almeida      

A gente sabe que como há uma majoritariamente no trabalho doméstico a racialização desse trabalho, as mulheres brancas ou de elite conseguem aí a sua autonomia, conseguem acessar universidades ou carreiras altas de trabalho, porque há uma outra mulher que desempenha aquele trabalho que também é esperado dela. Então ela.. terceiriza ali e pra ela também fica confortável. 

[00:25:47]

<<<<< Narração >>>>>  

O trabalho de Juliana Teixeira, pesquisadora, professora e autora do livro”Trabalho Doméstico”, expandiu muito nossas reflexões para esse episódio aqui. Com ela, a gente entendeu que essa forma de labuta pode ser usada como mecanismo de regulação do tempo dessas mulheres, que na enorme maioria são mulheres negras. Esse trabalho pode ditar, determinar também possibilidades de estar no mundo para esses corpos. Esse trabalho pode se confundir com afeto. 

 

[00:26:20]

Entrevistada Mariana Fideles (Fifi) e Léia Chrif de Almeida      

E pensando nesse refinamento que barra a estratégia que é usar o afeto, o afeto, dissimular afetos. Então, dentro do campo do trabalho doméstico, trabalho de cuidado também. Então, essa dissimulação é um componente estrutural. No trabalho doméstico, você dissimula um afeto, você performa que aquela pessoa é da família e é mais um dispositivo de poder dentro daquele trabalho.

E acho que o medo vai permear toda a estrutura, porque é o medo de perder o emprego, é o medo de denúncia, é o medo de não levar mais o pão para casa, é o medo de ir pensando quantos por cento dessas mulheres são chefes de família. 

[00:27:18]

<<<<< Narração >>>>>  

Afeto, família. como se fosse da família. Trabalho doméstico e abuso são baseados também na apropriação de corpos e afetos. Essa também é uma das maiores estratégias do abuso sexual, contra crianças e adolescentes e contra os adultos também. A Lei nº 15.353 de 2026, alterou o artigo 217-A do Código Penal para incluir expressamente que a vulnerabilidade da vítima é absoluta. Isso garante que essa estratégia violenta à cooptação do afeto nunca mais seja usada.

Não existe consentimento em abusos de vulneráveis, ou seja, não existe namoro entre adulto e criança e adolescente, não. Você entende a importância das leis para barrar as práticas invisíveis envolvidas nos abusos? 

<<<<< Transição Sonora >>>>>

[00:28:21]

Entrevistada – Wlamyra Albuquerque

Meu nome é Wlamyra Albuquerque, eu sou professora do Departamento de História do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal da Bahia.Eu acho que a gente precisa desmontar qualquer tipo de leitura romântica. sobre esses ídolos. A gente está falando sobre violência, porque há condições absolutamente desiguais. A gente está falando de uma mulher que pertence, é uma propriedade daquele senhor. A gente não está falando de um encontro romântico. E a gente tem que pensar sobre como essa ideia até desse romantismo, desses encontros entre desiguais, tão desiguais, entre uma mulher escravizada e um senhor herdeiro, como isso foi sendo útil para que a sociedade brasileira invisibilizasse o papel…dessas empregadas domésticas, dessas trabalhadoras domésticas dentro da casa, no sentido de que elas devem servir. A ideia do serviço que se estende em vários campos e que é ainda algo que a gente convive na sociedade brasileira o tempo todo, tem a ver com a lógica desse escravismo no Brasil. A gente está falando sobre uma sociedade brasileira que resguardou um campo para o trabalho escravizado dentro das suas casas. Isso é de uma perversidade estrutural muito profunda. 

<<<<< Transição Sonora >>>>>

[00:29:55]

Arquivo de Romeu Zema, ex-candidato à presidência da República

Eu trabalho desde que eu aprendi a contar. Quando eu era criança, era permitido tirar uma carteira de trabalho aos 14 anos. Assim que eu fiz 14 anos, eu tirei. Hoje é dia do trabalho e aqui no Brasil parece que a esquerda criou essa noção de que trabalhar prejudica a criança. 

<<<<< Narração >>>>> 

Num país onde candidato à presidência defende abertamente o trabalho de crianças e adolescentes, de que criança que ele está falando? Que grupo de criança está sendo considerado apto para o trabalho? Quais mulheres estão protegidas e quais mulheres estão exploradas por nem serem consideradas mulheres?

<<<<< Transição Sonora >>>>>

[00:30:44]

 

<<<<< Narração >>>>>

Se minha mãe não é livre, eu também não sou. 

 

São poucos os documentos oficiais que nos contam sobre a infância de Luiz Gama. Mas é possível sim entender que as lições daquela mãe, Luisa Marim, escravizada no contexto doméstico, foram base para a atuação do menino e do homem que ele se tornou. As práticas cotidianas que viveram juntos foram semente no pensamento de Luiz Gama. 

 

[00:31:15]

 

Entrevistada Neon Cunha

Quando vocês colocam essa provocação, que a gente está pensando num sistema análogo a…A escravidão, eu vou dizer pra vocês, quando eu vou trabalhar com a minha mãe pra me proteger na faxina com quatro anos, uma história que eu sempre… e eu vou trabalhar pra ela, eu achava o máximo, primeiro, que eu tinha uma proteção. Olha como o jogo é perverso. Primeiro, que eu tinha uma proteção dela.

Segundo, porque eu estava com ela. Aqui é a Neon, Neon Cunha, uma mulher negra, ameríndia, transgênero, nessa ordem de importância. E é assim que eu me vejo no mundo. Atualmente eu sou uma diretora de arte publicitária, uma funcionária pública de 44 anos. Atualmente, nesse momento, candidato a Deputada Estadual em São Paulo.

[00:31:57]

<<<<< Narração >>>>>

A Neon conta para a gente, nesse podcast, um pouco sobre a sua infância e a convivência com a mãe dentro do trabalho doméstico. Mas não só. Ela traz para a gente as lições de direito que ela aprendeu nesse e em outros contextos. 

 

[00:32:12]

Entrevistada Neon Cunha

Não importava que eu estava fazendo faxina, não importava que eu era uma criança, deixou de ser uma criança, mas eu também vi muitas vezes nessas faxinas, minha mãe amamentar crianças e outras pessoas.

Inclusive, patroas diziam que tinham nojo, que não queria mais amamentar. Minha mãe colocava no próprio peito, eu ficava muito brava, morria de ciúmes da minha mãe, isso é um fato. Porque era o tempo que eu tinha com ela, porque ela não tinha tempo. Porque além de fazer faxina, ela tinha que fazer a comida, ela tinha que dar conta do meu pai. Quando meu pai se apresentava a ela, que cuidava, ela tinha que fazer a faxina. Cuidar do meu pai, cuidar das crianças, cuidar da manutenção da casa. Mas quando ela traz tudo isso, e a gente está falando de infância, e como você traz perfeitamente essa coisa análoga à escravidão, a gente precisa lembrar de uma coisa importante. Eu tenho pautado muito isso, acho que o livro da Berenice Bento, que ela conta que é a abolição, embora eu acho que falei com a própria Inês que tem coisa que eu precisava rever a partir da ótica de mulheres negras, mas ela está falando da lei do ventre livre de 1871, que vai considerar então os primeiros brasileiros a partir da lei do ventre livre. Nem mulheres, são esses ventres negros e negros, essas mulheres são categorizadas só como ventre, como reprodutoras. 

 

[00:33:23]

 

<<<<< Narração >>>>>

Como é que é a representação das nossas crianças? Como estão representadas e vistas nossas mulheres, trabalhadoras e mães? Cria Coragem vai bater muito nessa tecla, porque uma certa representação estabelecida por séculos muitas vezes acaba por desumanizar, autorizar a violência sobre alguns grupos.Então, esse é um campo de disputa também, e estamos nele para jogo.

 

<<<<<< Samba enredo da Salgueiro cresce >>>>>>

 

[00:34:04]

 

Voz de Cláudia Alexandre

Beto Sem Braço que disse o que espanta a miséria é a festa e ele diz a gente faz festa não é porque a gente está alegre é porque a gente está triste 



<<<<< Narração >>>>> 

Essa é a voz da professora Cláudia Alexandre, entrevistada da primeira temporada do nosso podcast. Aqui ela está no Roda Viva, entrevistando Xande de Pilares e retomando essa reflexão tão presente na prática de Laudelina. 

Se não pode sindicato, se não pode se reunir, se associar, Laudelina e as outras criam festa, baile das domésticas, para curar, para discutir, para encontrar, para se representarem da forma que quiserem e para descansar também.

Num contexto tão desafiador, as celebrações e encontros foram e são estratégias de luta e de direitos fundamentais para Laudelina, seus pares e para tantos outros homens, mulheres e crianças.

 

[00:35:10]

<<<<< Entrada da ficção >>>>>

O vestido falava: veste! Veste o sonho. Mãe Lina ficou tímida. Algo raro. Olhava para a peça de roupa sem saber de imediato atender esse pedido. Laudelina ou Mãe Lina costumava usar peças mais discretas, toda preta ou branca. Achava fino e confortável. Não aparecer de mais e nem de menos. Hoje não, gritava o vestido. Bota a cor aí, me veste e vai. Laudelina não podia crer que o vestido falava aquelas coisas. Devia ser Juventina, Amélia ou Amália, escondidas ali no quarto lhe incentivando como sempre. Aquelas grandes amigas. Uma modelagem toda de tecido roxo escuro.

Nunca tinha visto um tecido daqueles. O pescoço e colo mais à mostra do que ela estava acostumada. O comprimento, mais abaixo do joelho. Isso Laudelina exigiu. Assim, os passos de tango que ela amava tanto se desenhavam com mais facilidade.

O tecido branco completava o corpete da peça. Todo bordado de flores pretas. Camélias. A Laudelina pensou. Quanto tempo a costureira levou para bordar isso? Meu Deus! Doutor José, médico e líder negro de Campinas, mandou o carro que levaria a Laudelina até a capital, São Paulo, para esse grande dia. Maria Helena chegou esbaforida, tocou a campainha e estendeu uma caixa de veludo. Um colar de pérolas brilhou. Maria Helena passou as pedras preciosas pelo pescoço da amiga e apertou o fecho. De onde é que veio isso, Malê? Laudelina perguntou com aquela voz forte de sempre. Malê respondeu, é seu. Anunciação e Regina que me ajudaram a comprar. 

Em 1970, a viagem até São Paulo demorava muito e Laudelina teve tempo de convencer Vicente, o motorista, de que a fala de Médici na rádio não tinha nada de bom coisa nenhuma.

Eles precisavam se organizar, juntos. Nada de domésticas e motoristas lutando separado, não. Paulistano da Glória, no bairro da Liberdade, era a escola de samba promovendo o grande encontro. Glória e Liberdade. Laudelina amava pronunciar devagar essas palavras e frequentar esse endereço na capital. Naquela noite, a escola de samba promovia o Baile das Domésticas. A festa fervia lá dentro em alto e bom som, marchinhas e boleros.

[00:38:05]

Voz de Laudelina de Campos Melo

A sociedade fazia o que a gente está fazendo hoje, reunia os grupos para conscientizar o negro, para a gente conseguir a elevação da raça, a cultura. Que tipo de atividade promovia a Frente Negra? 

Reuniões, festas, passeios, a gente vinha a Campinas no Bosque fazer piquenique. Então nasceu a ideia dentro da Frente Negra de fundar o departamento doméstico. 

[00:38:40]

<<<<< Entrada da ficção >>>>>

A porta da festa acumulava luzes, olhares brancos curiosos, perfumes desconhecidos.

E muito menino vendendo cigarro e jornal, menina lustrando os sapatos. Dona Nina, olha ali a Dona Nina. Um buchicho. Muitos a reconheceram. E Laudelina passou com cuidado, desviando o tecido roxo escuro das poças e brasas. Entrou. 

Impossível não se emocionar. Logo de cara, Nina viu Dona Geralda, responsável pela festa, compondo futuros com Madrinha Eunice, na mesa principal do salão. Carolina Maria de Jesus chegou juntinho, agarrou o braço de Laudelina e pediu: Segura a emoção, Nina. Maquiagem linda a gente espera pra borrar no fim. 

Juntas, cruzaram o salão, que abriu mais do que o mar vermelho pra lhes receber. Carmen Silva, a Pérola Negra, sobe no palco para cantar Um Coração Machucado. É romântico e alguns reclamam que ali é espaço para samba. Maria Auxiliadora fuma um cigarro e solta argumentos.

[00:39:48]

Ela canta o que ela quiser. Se me mandaram limpar e eu pinto quadros… As risadas naquela mesa, encontro de rainhas, só paravam mesmo pra comer ou quando chegava o fotógrafo.

Gostavam mesmo de imprimir suas histórias e mirar bem fundo nos nossos olhos aqui, no século XXI. As crianças maiores assumem a bateria na pausa da velha guarda. Os menores correm numa felicidade que grita desesperada. 

Quem é aquele menino no bumbo, Geralda? É o meu filho Geraldo, comadre. Reconheceu não, minha Nina. É Geraldinho Filme. Eita, que cresceu e a gente nem viu. Como toca bonito, rapaz.

Geralda aproxima com gesto todas as cabeças daquela mesa. Nina, lembra aquela casa que eu limpo no Jardim América e me levaram pra Europa? Rodei mundo véio, comadre, e chamei vocês tudo aqui na festa pra contar que o povo tá se organizando.

Nesse momento, o menino Tadeu assumiu o surdo. O grave ritmado do magrelo dá orgulho pra Madrinha Eunice. O samba cresce com ele. 

E elas não conseguem mais se ouvir ou se falar, mas nem precisa. Se olham e assim também comunicam. Aquelas mulheres já entenderam tudo. 

[00:41:13]

<<<<< Narração >>>>> 

Proibida de sindicalizar, Laudelina promovia festas desde os 16 anos. São muitas artistas visuais, produtoras culturais, pensadoras, escritoras, carnavalescas que ganhavam e ganham seu sustento no trabalho doméstico. Sabe quem fazia e faz parte dessas artes, escola de samba e festas? As crianças e adolescentes. Esses até hoje são bailes e espaços seguros, não apenas para que essas famílias, separadas pelo trabalho, possam conviver, mas também passar um tempo juntos e construir autoestima individual e coletiva. 

<<<<< Transição Sonora >>>>>

<<<<< Narração >>>>>

Ato 3. Deus ajuda quem cedo madruga.

 

Quem percorre a exposição Dignidade e Luta sobre a história de Laudelina Campos de Melo em cartaz no IMS São Paulo conhece obras e artistas que tratam de e por vezes vivem o trabalho doméstico. No fundo da exposição, é possível se deparar com o enorme tecido impresso obra de Luisa Leão. A faixa branca grita: “Um corpo cansado é um corpo facilmente dominável. Descansar é um ato revolucionário.” 

<<<<< Transição Sonora >>>>>

 

<<<<< Narração >>>>> 

Ansiedade, medo e cansaço quebram a gente. Ocupam, enfraquecem, adoecem, dominam, desagregam o coletivo, causam treta, rupturas, estafa, causa falta no culto, ausência na reunião de associação, desatenção para aquele problema que a criança e o adolescente estão tentando te contar. E cara na tela, colada nos posts, sem querer pensar… em nada.

Nem mesmo em como mudar essa rotina terrível que está vivendo no trabalho.

Como reagir a um chefe, como buscar os seus direitos, como denunciar aquele tio lá que já passou do limite. Os abusos e assédios acompanham a ansiedade, o cansaço, como método antigo, repetido, hereditário. Quem tem interesse nesse sistema econômico, nessa opressão, aprende desde cedo a perpetuar esses métodos. As violências são interseccionais, mas a nossa organização também é hereditária. Estamos todos, homens e mulheres, adultos e crianças, enfrentando essa ansiedade, medo e assédios. Em níveis diferentes, lógico, mas do trabalho doméstico ao escritório, passando pelos carros de aplicativos, estamos afetados pela economia que impõe esses métodos antigos de dominação. Sabe um bom antídoto para esses abalos? A memória pessoal e coletiva.Essa pista veio lá de Luiz Gama, sim, ele de novo, Luiz Gama, nasceu livre e foi vendido, escravizado pelo pai biológico, mas ele se lembrava de cada passo dessa violência e desse processo, e isso foi a boia que salvou a vida dele nesse mar.

[00:44:37]

 

Entrevistado Bruno Lima

Se você quer entender alguma coisa de direito, você tem que dominar, cuidar. É preservar a sua memória. Você tem que lembrar das coisas. Para muito além das eleições de 2026, como é que a gente inventa a liberdade diariamente? Como é que liberdade é um corpo pleno de direitos, um corpo com direito a uma vida plena, feliz? Então, invenção da liberdade é um conceito que eu ia trazer mais tarde, mas que eu sinto que você já vai desenhando como método em muitos aspectos da vida do Luiz Gama, né? É, e eu volto a dizer nessa linha, Alícia, de que é memória. As observações que ele faz no tempo de criança são muito precisas. Do endereço que ele nasceu, da vizinhança, da figura do pai, do amigo do pai, da mãe.

Ele vai contar a história da mãe que ele só viu até os oito anos de idade. Ele reconstrói a infância dele com muito detalhamento. E isso é uma das lições do Luiz Gama. O Luiz Gama tem uma memória, um cultivo da memória, um jeito de se lembrar das coisas, que se torna a principal estrutura para ele pensar o mundo. Se o Luiz Gama, no dia que foi escravizado pelo próprio pai, se o Luiz Gama não lembrasse o nome… do barco que ele foi metido, o dia, na companhia de quem o pai estava e o capitão, o nome do capitão do barco, se ele não tivesse esses elementos, ele não conseguiria reconstituir um capítulo decisivo dessa violência. Ele está ensinando que nada como a memória. E também o poder de reformular a memória.

[00:46:32]

Ele jamais deixou que a identidade de escravizado que o pai marcou nele determinasse o seu destino, a sua vida. Porque o Luiz Gama passa a adolescência escravizado. Até que toma contato com a palavra escrita. E aquilo é uma revolução na cabeça e ele começa a procurar os papéis que eram as correntes que o escravizavam. Porque o proprietário que o comprou dizia, eu tenho direito à propriedade sobre ele porque eu tenho os papéis para isso. O Luiz Gama começa a entender o valor do papel, da palavra escrita e entende que a escravização dele… E muito dependia desses papéis. 

[00:47:17]

<<<<< Narração >>>>> 

Luiz Gama se utilizou da lei da época, feita e aplicada por aqueles que escravizavam para libertar a si e a muitos outros. E assim, pacientemente, ele libertou não uma nem duas, mas de 500 pessoas antes mesmo da lei da abolição. 

 

Quando a gente traz essas histórias centenárias, esses métodos podem até parecer antigos, mas, ó, estão atuais como nunca. Conta pra gente, Neon. 

[00:47:48]

Entrevistada Neon Cunha

Eu lembro o nome da diretora, Dona Célia. Eu lembro o nome da EMEI, que é a EMEI Itália de Santos Freires, perto da escola. Eu lembro que era na Rua Austrália, depois do Colégio Lopes Trovão. Eu lembro a Rua Nacional de Fátima, número 19, no Jardim Continental, ali em São Bernardo, que era perto do Santo Inácio, que era perto da escola. Mas por que tudo isso? Na ditadura as crianças eram sequestradas, as crianças pobres sumiam. E tem estudos sobre isso. Crianças na ditadura sumiu. Eu decorei meu nome, meu endereço, eu decorei o nome de meu pai, de minha mãe. Eu sabia tudo na ponta liga, como sei até hoje.

Porque você tinha que ter isso e mais do que isso. Era uma declaração de amor dos seus pais te educar para a memória. A gente não desiste da criança que a gente é. Por mais resistência dessas pessoas… A gente não desiste, você volta para a infância. A infância é fundamental como memória. 

[00:48:49]

<<<<< Narração >>>>> 

A memória é talvez uma das formas mais eficazes de produzir e garantir direitos. A memória de quem somos nos reumaniza, cura, conecta, agrega, associa. Associação de Ideias e Associação de Pessoas, Sindicatos, Festas, Bailes, Sambas, Congadas, Dia das Crianças na Rua. Aqui em Cria Direito estamos mapeando formas de combater abusos e assédios, mas muita gente já desenhou até manuais para essa batalha. E esse episódio retoma muitos deles. Reunidas em cozinhas, bailes e pelas ruas, festejaram, amaram, memoraram, viveram vidas comuns, extraordinariamente cotidianas.

 

<<<<< Transição Sonora >>>>>

[00:49:39]

 

<<<<< Narração >>>>> 

Ato final. Escreveu e leu. 

[00:49:48]

Entrevistada Wlamyra Albuquerque

O Estado brasileiro, no momento que se funda, e aí a trajetória de Luiz Velma é muito fundamental, no momento em que está se discutindo sobre a construção de uma sociedade republicana, então há ali uma mobilização muito grande que vai romper com o Império. E na construção desse projeto de nação já está imbuída uma ideia de desigualdade racial. A gente não pode agir sobre o que foi a sociedade escravista, mas a gente pode agir sobre qual é o projeto de nação que nós estamos construindo agora, no sentido de desmontar algo que está na base desse projeto nacional, que é a manutenção de desigualdade de gênero, raciais. regionais de invisibilização das populações indígenas por exemplo, de invisibilização da população de rua de invisibilização da infância negra como uma questão que precisa ser resolvida na sociedade brasileira então, falar sobre Luiz Gama

[00:50:46]

E a própria construção que ele fez da sua própria infância e a maneira como ele se dedicou a garantir a condição de liberdade de crianças escravizadas é, de novo, sob o estatuto de um Estado brasileiro dentro da lei. Não tem nada de contestação da lei nisso. Muito pelo contrário, é de sustentação do que está dito na lei, mas de reorganização do projeto de mineração em que a lei prevaleça. 

[00:51:18]

Entrevistada Mariana Fideles (Fifi) e Léia Chrif de Almeida 

A linguagem do direito é muito difícil, então vamos repensar as estratégias para aquilo chegar nelas. E é claro que a gente não vai dar conta de tudo, mas a gente estava pensando sobre isso. E a gente conseguiu, dentro dos nossos limites, né, 3 mil ali, era a quantidade de trabalhadoras do nosso grupo. Sim, era por aí, 3 mil.

3 mil trabalhadoras unidas ali, se comunicando. É, então foi muito potente, né, é muito potente.Nossa, e me chama a atenção como… A gente sabe que a escravidão se atualiza e ganha outros métodos e outros nomes, mas a gente também se atualiza na luta, né? Sim. Você acaba de apresentar o tabuleiro que tanto passava as mensagens das revoluções, aquilo que não podia ser dito, vinha no tabuleiro embaixo de um quitute ali na venda. É bonito ver como as nossas estratégias também se atualizam na luta, né? Sim, sim. 

<<<<< Transição Sonora >>>>>

[00:52:18]

Entrevistada Wlamyra Albuquerque

Tendo em vista que a liberdade é algo que a gente inventa cotidianamente e que a gente precisa lutar pela condição de liberdade. Ela nunca vai ser algo atribuído. A gente precisa ser livre para escolher o que come.

A gente precisa ser livre para escolher com o que trabalha.A gente precisa ser livre para dizer o que pensa a partir da nossa própria… da condição e da condição do outro. A gente precisa ser livre para defender os direitos coletivos. A gente precisa ser livre, inclusive, para defender direitos que não são nossos. No direito de você ver mulheres de várias gerações, de ver meninas de várias gerações circulando livremente. Isso me dá liberdade. Então, eu acho que A liberdade é uma invenção cotidiana e uma invenção coletiva. 

[00:53:12]

Voz de Laudelina de Campos Melo

Nós vivemos num país em que a sórdida política não conseguiu ainda chegar num termo. Porque quem está lá dentro são os senhores de engenho, são os donos das terras, são os donos de tudo.

<<<<< Som de quintal, pássaros cantando, vento batendo, cadeira de balanço rangendo >>>>>

[00:53:36]

 

<<<<< Entrada da Ficção >>>>>

A cadeira de balanço chiava solitária com a brisa que batia, como quem sussurrava, por favor, balança comigo e descansa, mulher. E Dona Laudelina consegue que nada. 86 anos de trabalho e idade. Mas a cabeça dela, mesmo no domingo, só conseguia organizar a quermesse. Junho tá chegando aí. As pálpebras pesavam-se. O quadril a obrigava a sentar. Doía, pois dona Laudelina foi até espiã na Segunda Guerra. Em Santos, ela levou um tiro que a acompanhou por todo o sempre. O calor visita a pele da sua cabeça erguida. Mão direita sobre a bengala, pés que flutuam e aterram, flutuam e aterram, junto com as vontades da cadeira.A toalha estendida no varal cheira a limpeza profunda, que Dona Laudelina ainda sabe fazer sim, mas que agora cobre a sua própria mesa de jantar, em seu próprio tempo, em sua casa própria. Rua Taúfo Alves, 396, Campinas. Dona Laudelina ouve muito, fala mais que a boca. Aberta. Mas as vistas fechadas, o som no rosto, o rádio ligado. É rádio velho, mas é dela. Não se desfaz dele por nada nesse mundo. Quebre com certa, quebre com certa, que nem as memórias. A música, o rádio entrega como cartas…

<<< Som de frequência de rádio, sintonização até que encontra uma estação >>>

[00:55:27]

 

Voz de Carolina Maria de Jesus

Uma palavra escrita não pode nunca ser apagada Por mais que o desenho tenha sido feito a lápis E que seja de boa qualidade a borracha O papel vai sempre guardar o relevo dessas letras escritas Não senhor Ninguém vai apagar as palavras que eu escrevi.

[00:56:00]

 

Voz de Ailton Krenak

Porque a vida não tem utilidade nenhuma. A vida é tão maravilhosa que a nossa mente tenta dar uma utilidade pra ela. A vida é fruição. 

Voz de Madrinha Eunice cantando

Quanta saudade me traz dos bons dias… 

Voz de Pepe Mujica

E o que estamos gastando é tempo de vida. Porque quando eu compro algo, não  compro com dinheiro mas sim com o tempo de vida que eu tive que gastar para ter esse dinheiro. 

<<<<< Entrada da Ficção >>>>>

Aquela senhora já foi o terror das patroas.Aquela dona Laudelina já impediu anúncios racistas no jornal, já até falou contra os estereótipos que a novela tem das domésticas. Dona Laudelina descansa trabalhando e trabalha para descansar, mas agora escolhe e esse direito é seu. Conquistou e desfruta, como muitas outras depois dela. 

<<<<< Sintonização de rádio >>>>>

Voz de Juliana Gonçalves

O bem viver é algo que de fato vai apontar caminhos para uma outra construção social. É a gente entender esse bem viver como uma possibilidade de criar outros imaginários e imaginários que vão criar outros mundos.

[00:57:25]

 

Voz de Laudelina de Campos Melo

Para mudar tem que nós, nós temos que nos conscientizar e reunir e organizar. Esperado essa gente nunca nós vamos subir não. A quem cabe a grita? Não é dos safados que estão lá sentados comendo e bebendo às nossas custas não. É nós que temos que gritar. 

<<<<< Entrada da Ficção >>>>> 

Dona Laudelina sente o cheiro, é o seu caldo mais famoso e poderoso, e ainda ferve o caldeirão. Foi muito vatapá, muito angu que ferveu, muita vassoura que varreu, muito móvel lustrado para só então comprar aquela casa, a sua liberdade. Terra é garantia de vida, é direito básico, assim como corpo íntegro e protegido. A garantia de chão aterrado para sempre, para abrigar também o sindicato das domésticas. Herdeiras oficiais desse quintal, da sala e até da cadeira de balanço que está lá até hoje.

 

Abre os olhos, apenas uma fresta, e vê a pequena Nina que foi ali, na sua frente. Dona Laudelina dorme e descansa.

<<<<< Transição Sonora >>>>>

[00:58:52]

 

<<<<< Narração >>>>> 

Laudelina nos ensinou que se não fomos chamados pra festa, fazemos outra, a nossa.A festa da democracia. Dona Nina nos lembra que já tivemos tempo longo na porta de casa, junto dos vizinhos, pra prosear e fofocar. Lembra? Tempo pra fabular um domingo de sol gostoso. O verão apontando no horizonte, para colocar as cadeiras juntos e sentar ali. Cadeira de balanço, cadeira de praia, cadeiras pequeninas para as meninas e para os meninos. Para a dança das cadeiras. Bancos improvisados sob baldes, para aqueles que chegaram depois, mas chegaram. Com carne e queijo para colocar na brasa. Com o fim da escala 6×1. Até que fica possível essa realidade, né? 

 

[00:59:42]

 

Voz de Dandara Pilar

Trabalhei desde menina. Na infância, lavei, passei, engraxei. Filhos dos outros, embalei.Eu sou a negra escritora que virou notícias nos jornais, que foi do quarto de despejo aos programas de TV.

Sou uma Carolina, escrevo desde menina. Os meus textos foram rasgados, amassados, pisoteados, foram tantos beliscões pelas bandas lá de Minas. Eu sou de Minas Gerais. Eu fugi da casa da patroa porque vassoura não quero mais. Agora a caneta é o meu troféu, eu bordo as palavras no papel e é tudo o que eu quero dizer. Eu sou uma Carolina. Escrevo desde menina, hoje uso salto alto, vestido decotado, meio curto e com babados Estou na sala de estar, no meu sofá aveludado, por quê?Porque sou uma Carolina, feminina em poesia Eu, Dandara Pilar, sou uma Carolina, minha família é uma Carolina, vocês são carolinas Viva Dandara Pilar, viva Carolina, viva massa!

Salve para ler depois
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