Podcast EP #04

Onde conecta?

INTRODUÇÃO

Narração Luiza: Esse é um podcast que busca desnaturalizar as violências cotidianas, aprofundando reflexões. Talvez algumas histórias aqui te toquem pessoalmente, pois são as histórias de todos nós. Fica aqui, então, um aviso de gatilho possível.

<<<<< Trilha Sonora: Chocalho e Clave >>>>>

[00:22]

Narração Luiza: Todas as brincadeiras são de menina e de menino. Super importante afirmar isso, já que o machismo e a segregação do gênero são pontos que sustentam o abuso sexual infantil. Os jogos, os grupos e as conversas também formam a criança e o adolescente, na escola, na rua e dentro de casa. Então, como é que será que as nossas crianças estão usando o tempo livre delas? Pode não parecer, as a resposta para essa pergunta ajuda a proteger as nossas infâncias e adolescências. Então, segue o fio. 

 

<<<<< Som de cidade >>>>>

 

FICÇÃO

 

[00:58]

 

Narração Luiza: Era uma vez uma TV de tubo herdada da avó. Ela passou por muitas mudanças. Sempre a primeira coisa é entrar na casa. Já viu de tudo nessa vida. O entra e sai do corre da mãe, a ausência do pai e a curiosidade da criança, com quem passava a maior parte do tempo. A TV criou Marquinho. Assistia todos os dias o menino almoçar na frente dela. Aquele corpo que era pequeno, agora ocupava cada vez mais espaço enquanto o sofá diminuía. 

 

<<<<< Sonoridade de desenho dos anos 90 >>>>>

 

[01:31]

Narração Luiza: A tela, sempre ligada no 220, evitava que o Marquinho saísse pra rua, fizesse besteira, se machucasse. Do Teletubbies ao Pikachu, pulava com ele os canais do noticiário para chegar mais rápido no Castelo Rá-Tim-Bum. Ela se apegou no menino. Sentiu muito quando as mãozinhas descobriram o fliperama engordurado do bar do seu Edson e nunca mais mexeram no Bombril das suas antenas. A tela colorida do fliperama refletiu os olhos vidrados de Marquinho na disputa pelo joystick com Isaac, Magrão e Socó. Todos eles tinham que se equilibrar no caixote de cerveja para alcançar o jogo e fazer valer a última ficha.

 

<<<<< Sonoridade de fliperama >>>>>

 

[02:12]

 

Narração Luiza: As horas passavam e já caíam a noite, os homens e alguns copos do bar. Isaac cutucou os amigos: “Bora daqui conhecer um lugar novo. Com um real lá, a gente joga uma hora inteirinha”

 

[02:27]

 

Narração Luiza: Era uma casa muito engraçada, cheia de olhares. Telas de parede a parede. 

 

[02:33] 

 

<<<<< Sonoridade de internet discada >>>>>

 

Narração Luiza: Julinha era um ano mais velha. Trabalhava ajudando na lan house da tia Cláudia. A Ju era moderna, sabia usar a rede. Mas não demorou muito não pra todo mundo aprender a navegar. Janelas abertas, miragens… 

 

Narração Luiza:  Magrão e Socorro rapidinho viraram Magrix e Sócrates, membros fundadores da comunidade “Odeio Segunda-feira” no Orkut. Isaac93 copiava cifras e conversava em inglês com gente que também amava música. Ninguém nem sabia que ele falava outra língua. Julinha, quer dizer, Juca92, tinha uma mira afiada e estraçalhava qualquer usuário do Counter Strike. Marquinho aprendeu tudo com Julinha e até ela percebeu que ele gostava daquela ideia de atirar. 

 

<<<<< Sonoridade de videogame e som de tiros >>>>>

 

Narração Luiza: A bola véia que ia de pé em pé na volta para casa depois que acabavam os trocados, um dia ficou esquecida no fundo de quintal.

 

<<<<< Sonoridades da internet: som do MSN, Windows Iniciando, mensagens chegando >>>>>

 

[03:44]

 

Narração Luiza: O tempo passava pelos ossos de Marquinho que doíam de crescer depressa. Agora o computador dividia quarto e acordava ele todo dia. Seus pais ficavam sempre na cola, mandando ele tomar banho e fazer o dever de casa. Mas as partidas na madrugada eram as mais concorridas. A tela plana via os olhos dele arderem, mas só ganhava aquele mais dedicado. Não dava para desconectar. 

 

Narração Luiza: Sócrates saiu da sala.

 

[04:14]

Narração Luiza: Três da manhã. Sobrou Marquinho e Isaac93 para a partida com Águia X, ADM da sala. Foram muitos dias do grupo jogando com o Águia X. Desenhando estratégia, vencendo, avançando… cativando. 

 

<<<<< Sonoridade de videogame e som de tiros >>>>>

 

Narração Luiza: Isaac93 saiu da sala. 

 

[04:36]

Narração Luiza: Ficaram tela a tela, Marquinho e Águia X. Esse jogador sênior tinha mais selos e partidas do que qualquer adolescente daquele clã. Águia X solicitou conversa por áudio.

 

<<<<< Sonoridade de solicitação de ligação >>>>>

 

Narração Luiza: Marquinho permitiu. O fone de ouvido entregou uma voz grave, um pouco rouca. Marquinho estranhou. Pensava que o Águia era aquele cara do terceirão ali da rua de cima. Bom, mas não dava para desconectar. Águia prometeu o selo e disse que o menino podia ser o novo ADM, só bastava mais duas rodadas. 

 

[05:13]

Narração Luiza: Já eram quase cinco da manhã, logo tinha escola. Águia X solicitou conversa por vídeo. 

 

<<<<< Sonoridade de solicitação de ligação >>>>>

 

[05:21]

Narração Luiza: Marquinho aceitou e ficou gelado. Não acreditou no que aquela tela revelou. Mas nem de longe aquilo ali era um adolescente. Um rosto de homem feito, bem mais velho, barba por fazer e camisa preta. Marquinho se sentiu enganado e com muito medo da mãe entrar no quarto bem naquele momento. Puxou a tomada de energia, a tela apagou e os olhos se fecharam com força.

 

[05:49]

Narração Luiza: O celular não podia entrar mais na escola. Marquinho penteou o cabelo, pegou a mochila e largou a telinha favorita esperando na mesa do quarto. Sentado na quadra, com sono, incomodado, cabeça e barriga doendo depois daquela noite estranha. Julinha, que é sua amiga de muito tempo, percebeu, chegou junto, perguntou e insistiu. Ele enrolou, enrolou, mas acabou contando tudo o que aconteceu e a menina não esperou nem ele terminar: “Passei pior que você com esse daí. Chega aqui junto do grupo que a gente tá ligado”. Magrão e socó já tem até uma lista de sugestões pra cuidar do maldito.

 

<<<<< Trilha Sonora: Chocalho e Clave >>>>>

 

[06:43]

Narração Luiza: Bem-vindos ao nosso podcast. Eu sou a Luiza Akimoto, pesquisadora e sonoplasta da Cria Coragem e vou conduzir essa caminhada sonora. Esse é o nosso quarto episódio e ele encerra essa temporada chamada Cria Histórias. Então, gente, continuem compartilhando, ouvindo, comentando que os retornos de vocês fortalecem muito a nossa luta. E muito obrigada por essa força. Bom, você chegou junto com a gente até aqui e deve ter sacado que todos os momentos históricos que a gente retratou aconteceram no século XX e XXI. E essa escolha não é à toa. Durante muito tempo na história, a visão ocidental europeia do que hoje a gente chama de infância não existia. A vida era dividida em dois: pré-adulto e adulto. Ali, perto do século XVII, a infância passa a ser considerada uma fase essencial da vida. E é só em 1959 que surge a Declaração dos Direitos da Criança, da ONU, para dar importância e proteção para as infâncias e adolescências. Está vendo? Esse conceito de criança e adolescente nasceu não tem 100 anos. Agora, como é que as comunidades afro-brasileiras e os povos indígenas daqui viam a infância ao longo do tempo? A professora Cláudia, no episódio 1, e o professor Casé, no episódio 2, trazem algumas pistas. Vale a pena essa reflexão. Aqui falamos sobre revoluções, mas buscamos também detectar nesses períodos históricos o que influencia diretamente na propagação da violência sexual. Esses assuntos, tidos como tabus, precisam de dedo na ferida, mas também de entender onde foi que a violência nasceu e onde se esconde. Falaremos um pouco mais disso nesse episódio, abordando o gigantesco mundo digital para entender os problemas e as potências desse ambiente. Não dá para encerrar essa temporada sem mais uma vez destacar as memórias e os conhecimentos do nosso povo, que muitas vezes passam por apagamento. Tem tecnologia de luta nessas histórias que encontramos. Complexo, né? Mas se o assunto é difícil, Cria Coragem.



[09:05]

Entrevistada Flávia Gasi – Jornalista e Escritora: É porque eu acho que a gente tem que começar do começo, né? Pensar por que a opressão é eficiente. Tipo, por que oprimir alguém é uma coisa que a gente faz? E daí a gente vai entrar num sistema muito histórico e muito antigo de como foram os sistemas de colonização. Então, a gente herdou da nossa colonização um desejo bélico que a Europa tinha e que a gente nunca teve. Então a gente começa por aí, assim. Ah, pra quem que isso é bom? Para o europeu. Para o europeu foi ótimo. Eles colonizaram um monte de gente e ganharam vários dinheiros. É isso. Eu acho importante a gente lembrar que a misoginia é mais antiga, a misoginia existe faz 5 mil anos. De várias formas. E é a coisa que é menos regulada. A gente não tem uma lei anti-machismo. Não existe. “Ah, ele foi machista comigo, deixa eu processar”. Isso é um absurdo, porque é uma das coisas mais antigas que a gente tem. Mas eu acho que a nossa cultura vem se tornando cada vez mais misógina por conta do online. A pandemia mostrou isso pra gente. Quando a gente não tem contato real com outros seres humanos e só com o algoritmo, a gente é moldado pelo algoritmo e não por outros humanos. Lacan já falava isso, nós somos o espelho daquilo que a gente vê. E qual é o espelho da internet? Ele é um espelho muito homem, muito branco, muito hétero e muito direitista. Essa é a pessoa que manda na internet. Se você mora numa comunidade qualquer que você possa sair lá fora e conversar com as pessoas, muito provavelmente não vai ser assim. Porque vai ter a pessoa trans ou a travesti que é respeitada por toda a comunidade, mesmo entre os machão, entendeu? Isso não vai acontecer online. Então, obvio que, por exemplo, o Brasil é um dos países que mais mata transexuais e eu acho que se a gente permanece dentro de uma cultura de algoritmo, ele nunca vai deixar de ser. A gente não pode só batalhar isso fora da internet, porque as pessoas estão sendo moldadas pelos territórios digitais. Meu nome é Flávia Gasi, eu tenho 43 anos. Eu lembro quando o território digital chegou no Brasil, foi em 1996.



[11:25]

Narração Luiza: A Flávia Gasi, além de ser uma especialista em games e discurso extremista, é também uma mulher que cresceu dentro do espaço de sociabilização do game. Ela viveu alguns dos efeitos dessa cultura de ódio contra as mulheres que só aumenta, como ela mesma disse. Buscamos a Flávia para ter acesso a esses dois conhecimentos: o acadêmico e o do corpo, que vivem intensamente a realidade do virtual também. 

 

[11:51]

Entrevistado Rafael Braga – Designer de Jogos e Arte-educador: Meu nome é Rafael Braga. Eu sou uma criança lá dos anos 90 e a gente tinha um tipo de acesso a telas, que era televisão em geral e tal. E essa mídia, o videogame, essa mídia interativa, ela surge quando eu já estou entendendo o mundo ali. E aí só me causa um fascínio. E aí a gente vai sofrer essa transição, meados de 2000 até 2010, de um acesso a computadores e internet que vai criar um outro momento tecnológico, tanto na periferia ou em qualquer território, e vai criar uma outra infância. A partir dali começa a surgir uma geração que já nasce com esse acesso às telas. Mas nesse período dos anos 90, estava acontecendo uma coisa muito distinta na indústria norte-americana, que ia demorar um pouquinho pra chegar aqui ainda no Brasil, que era essa separação entre jogo de menino e jogo de menina. E isso foi uma coisa intencional, feita pela indústria. Tinha uma guerra dos consoles, que era Nintendo contra Sega, e aí tinham propagandas. A propaganda era muito feroz, assim, no lugar de, ah, jogo da Nintendo é ruim, é de menina. E aí a Nintendo falou, não, jogo da Sega que é jogo de menina. E aí tinha uma propaganda da Sega que era: A Sega faz o que a Nintendo não faz, faz jogo radical. Então foi assim, criando essa guerra dos consoles que depois foi migrar para o Playstation, contra os consoles da Nintendo e da Microsoft e que perdura até hoje. Microsoft, Sony, Nintendo. E isso vai fazer uma coisa terrível, que é criar a cultura gamer. 

 

[13:32]

Narração Luiza: O Rafael Braga é criador, pesquisador de games e um grande educador. Nessa conversa com ele, a gente conseguiu ter a dimensão de um aspecto muito cruel desse espaço digital. Para além da pouca regulação, que causa situações de violência e vulnerabilidade, esse lugar também incentiva a propagação do machismo, o individualismo, a apatia e outros ingredientes terríveis no caldeirão dos abusos. Uma mistura que atinge e forma diretamente as crianças e adolescentes e em níveis muito maiores do que os adultos. 

 

[14:07]

 

Entrevistado Rafael Braga – Designer de Jogos e Arte-educador: A cultura gamer é até difícil de descrever, porque essa coisa de criar esse menino reificado, eu já ouvi a Flávia Gasi falar disso, que é o “jogador rei”, sabe? É um menino que toda a vontade dele tem que ser obedecida. A cultura gamer virou outra coisa a partir daí e ela se aliou com a extrema direita e tem até quem defenda que foi um forte impulso para a ascensão do Trump e da extrema-direita como um todo no mundo. Então, é nesse momento que a gente começa a ver essas coisas mais tóxicas. 

 

[14:47]

Entrevistada Flávia Gasi – Jornalista e Escritora: Então, essa tomada da extrema-direita do território digital é uma coisa que foi feita muito pensada, com muito teste, e hoje, pelo menos, a Central Antiterrorismo da Europa considera esse um dos maiores centros, porque é difícil apontar para um lugar só, mas centros de terrorismo que a gente vive atualmente. Como a gente não regula territórios digitais, a gente trata eles como se fossem um mundo que não existe. É um número absurdo de células neonazistas no Brasil e todas elas atuam nessas plataformas e nos territórios digitais com muita proficiência. Eu acho que o campo tanto de esquerda liberal quanto de esquerda radical esqueceu muito o território digital como um local de luta e batalha, então ele está totalmente tomado. 

[15:36]

Narração Luiza: É sempre sobre território. A disputa é sobre moradia, sobre demarcação de terras, mas também sobre território-narrativo, território-ideia e território-corpo, né? 

 

[15:49]

Entrevistada Flávia Gasi – Jornalista e Escritora: Então o território digital, para mim, foi um lugar de muita batalha. E eu acho que ele seria, qualquer território seria, por eu ser quem sou. Tipo, uma mulher de ascendência árabe, LGBT+, que trabalha num mundo que foi muito masculinizado pela propaganda. Porque o videogame foi masculinizado pela propaganda, não pelas pessoas que jogam. Por outro lado, o território digital me deu tudo. Me deu tudo. Tipo, tudo que eu aprendi sobre empatia, eu sinto que eu aprendi no teatro e com o videogame. Muito mais do que na faculdade de psicologia, por exemplo. Eu acho que eu entendi muito mais ali. E me deu minha profissão, me deu minha escrita, me deu a liberdade de ser quem eu sou também. Então, é um lugar de complexidade. Tal como o mundo. 

 

[16:42]

Narração Luiza: Aqui é Cria Coragem, né, gente? Então, bora complexificar essa ideia. O mundo digital não é o mal. Ele é o reflexo da sociedade. Assim como a escola, lembra? Lá dentro tem, inclusive, empatia e revolução, como a Flávia menciona. Então, por quê e pra quem é interessante demonizar esse território ao invés de alimentar suas potências? 

 

[17:07]

Entrevistada Flávia Gasi – Jornalista e Escritora:  É, eu acho que, assim, a gente precisa muito deixar sempre o debate um pouco mais afiado pra gente não cair no erro de achar que esses espaços são sempre espaços de violência ou que a violência é ruim. Então, eu não acho que o problema é a morte. Eu não acho que o problema é a gente falar sobre estupro. Inclusive, eu acho que é o contrário, quanto menos a gente fala sobre violência, abuso, mais a gente perpetua esse tipo de coisa calado. Então, assim, eu acho que muitos estudiosos, eles não conhecem videogame e quando eles vão estudar, a primeira coisa que eles pensam é que é um lugar de violência, é um lugar horrível. E não é. Existem games que são assim. Mas eles são assim por um objetivo mercadológico, político. E eu acho que essa violência que não qualifica que tipo de violência estamos falando é problemática. Da mesma forma que se a gente assume que toda mulher em videogame é um tipo X de mulher, isso é um problema. E eu acho que a nossa cultura esvazia o sentido da guerra, o sentido da violência e o sentido do abuso e da opressão. E isso também aparece nos territórios digitais, mas isso é um reflexo do mundo. Isso não é dos territórios digitais: “Ah, videogame causa violência”. Tem um bando de artigos desde 1950 tentando provar isso e ninguém nunca conseguiu provar. Porque é claro que não, entendeu? É claro que não. Existe uma questão de a gente olhar para que tipo de violência e como, e isso eu concordo, mas que uma coisa é causalidade da outra, não. Causalidade é o seguinte, em territórios onde as pessoas são pobres existe mais violência. Isso é causalidade. Videogame deixar você doidinho não é causalidade, isso é uma correlação. Pessoas mais violentas tendem a gostar de livros mais violentos, filmes, séries, games mais violentos.

[18:57]

Narração Luiza: Com toda essa propaganda que tornou o videogame coisa de menino, o mundo dos games foi ficando pior e mais agressivo. Existem muitos relatos de linchamento virtual e humilhação envolvendo as meninas que jogam. Mas, como sempre, elas, as pessoas LGBTQIAP+, pretas, indígenas acabaram também se tornando grupos de resistência dentro desse universo. O virtual é um forte espaço de socialização de todos, não só dos garotos.

 

[19:28]

Entrevistado João Juliete Rosa Andrade de Souza – Estudante do ensino médio na ETEC: E aí tem uma coisa que eu acho que é importante falar também, que normalmente as mulheres não costumam abrir muito o microfone no jogo, porque é um ambiente um pouco tóxico para elas também. Sempre vai ter um babacão que vai chegar e vai falar “ah, o que você está fazendo? Mulher não é para jogar, mulher tem que estar lavando louça”.

 

Alícia Peres – Diretora e Roteirista da Cria Coragem: Nossa em 2025 vai rolar isso.

 

[19:48]

Narração Luiza: Lógico que os jovens são especialistas nesse tema. Esse relato acima é do João, estudante de 16 anos de matemática na ETEC. E adivinha para qual pedaço do território digital as garotas foram jogadas? Para as redes sociais. Pesquisas recentes mostram que as meninas e mulheres são mais atraídas por esse espaço, passam mais tempo ali e têm sua saúde mental mais afetada do que os homens e meninos. Dá para ver essa pesquisa lá na nossa bibliografia. A Mirelly, estudante do ensino médio, faz uma análise precisa sobre a experiência dela nas mídias sociais. 

 

[20:26]

Entrevista Mirelly Sant’Anna – Estudante do Ensino Médio: Que muitas das vezes você entrava nas redes sociais, começava muito com o Facebook, que era o principal naquela época. Você entrava e você via uma pessoa, uma mulher que na sua cabeça era a pessoa mais perfeita para você. Ela era uma mulher branca, os cabelos louros, lisos e dos olhos azuis, o sorriso perfeito. E aí você começava a se comparar com aquela mulher. E você olha, aí você fala, caramba, eu quero ser assim, eu quero ser assim, eu quero, nossa, mano, tem cirurgia? Eu quero deixar meu olho azul, quero deixar meu olho verde, vou pintar meu cabelo. Aí começa, você não consegue entender a sua própria identidade.

 

Alícia Peres – Diretora e Roteirista da Cria Coragem: Você pode falar um pouco da sua identidade? Porque como a pessoa que tá escutando não tá te vendo, pra ela entender essa situação que você tá narrando. Qual é a sua identidade? Como é que você é? 

 

Entrevista Mirelly Sant’Anna – Estudante do Ensino Médio: Uma mulher preta, do cabelo cacheado muito cheio e os dentes separados, putz, extremamente magra. 

 

[21:26]

Narração Luiza: Mas o que é que atrai e também adoece as garotas nas mídias sociais? Aqui, a Mirelly aponta a rivalidade, a comparação, a busca por aprovação. Parece até um método novo para um treinamento que a gente sempre recebeu. E é nesse espaço que as garotas cada vez mais novas convivem. Saca a crueldade dessa lógica? 

 

[21:49]

Entrevistado João Juliete Rosa Andrade de Souza – Estudante do ensino médio na ETEC: Acho que eu até tenho Facebook, devo ter entrado umas três vezes no máximo. Tenho Instagram, não posto muita coisa. O TikTok eu consegui sempre ficar bem afastado do TikTok, porque eu sei que é uma coisa que consome muito, esses vídeos curtos. Eu tento sempre ficar o mais longe possível. Ultimamente eu tenho ficado bastante tempo na tela, mas eu acho que eu até prefiro sair de casa, jogar bola com o amigo, ir a alguma festa. Só que é fácil, é um conteúdo rápido, você vai lá, senta, fica no seu conforto. Eu acho que é por isso que a galera mais jovem está tão presa na tela, que é algo muito fácil que gera muito entretenimento. 

 

Narração Luiza: O episódio 3 do nosso podcast discute propostas de uma educação que forma para a crítica, para a reflexão, para a vida… Agora, uma educação maçante, que só prepara para o trabalho precarizado, somada com esse tempo livre que não fomenta o pensamento e nem a convivência. Perigoso, né? 

 

Entrevistada Anna Lucia Spear King: Psicóloga Clínica – Doutora em Saúde Mental: Meu nome é Anna Lucia Spear King, eu sou psicóloga, doutora em saúde mental. Que valores essa sociedade digital está tendo que não é repensada e não é incentivada a mudar? Tem até um termo que se chama FOMO: Fear of Missing Out, onde é o medo que o jovem tem de se sentir de fora, se sentir excluído dos contextos. Então, eles parecem que têm que entrar naquele contexto onde todo mundo malha, todo mundo tem o corpo perfeito, justamente nessas pessoas que têm baixa autoestima, não construíram isso na sua formação. Eles são muito vulneráveis a se sentirem excluídos fora daquele contexto e as redes sociais ficam propagando um modelo padrão de ideal a ser seguido, onde o modelo, o padrão ideal a ser seguido é o modelo da diversidade humana. Todos nós somos diferentes, todos nós temos as nossas características pessoais muito louváveis. Então é uma sociedade realmente muito maluca, que estão incutindo esse modo de ver nos jovens. Isso precisa ser mudado urgentemente, porque tem que ter uma sociedade com qualidade de coisas para que esses jovens possam evoluir e crescer de uma maneira muito melhor do que vendo esse tipo de coisa fluida, rápida. 

 

[24:22]

Narração Luiza: Autoestima. Palavra fundamental na nossa luta contra a violência sexual. Nesses anos de pesquisa aqui na Cria Coragem, esse conceito é um dos que mais aparecem nos grupos de mães e conversas com os especialistas. Uma criança com autoestima sabe defender o seu corpo, dizer não toca no meu cabelo e nem em outro lugar, sair gritando por aí se necessário. Criança com autoestima em dia é ser pensante. É ser crítico. E essa combinação afasta os abusos e a violência.

 

<<<<< Trilha Sonora: Chocalho >>>>> 

 

[24:58]

Entrevistada Anna Lucia Spear King: Psicóloga Clínica – Doutora em Saúde Mental: As dependências agem no cérebro no mesmo setor de recompensa, tanto álcool quanto drogas, quanto tecnologias. Então, por exemplo, no uso de álcool, a gente recomenda que a pessoa não use mais o álcool, evite usar o álcool definitivamente, nas drogas a mesma coisa, mas na tecnologia não tem como, porque o mundo está digitalizado, para tudo você necessita de uso de tecnologia, então você tem que aprender, literalmente, a fazer um uso consciente. 

 

[25:33]

Entrevistado Rafael Braga – Designer de Jogos e Arte-educador: O que eu tenho feito é trabalhar muito com a conversa, a gente tem que conversar muito, e não só com os jovens, com os pais, com a família, tentar se fazer entender que mesmo sua casa não é um território seguro. Então, existe o território da sua casa, existe o território digital da sua casa. O que acontece dentro do quarto, com a sua filha, com o celular na mão, quem está falando com ela? Se você não sabe essas coisas, é a mesma coisa de você deixar a criança na rua. 

 

<<<<< Sonoridade de transição >>>>> 

 

Reportagem CNN: A Polícia Civil vai enviar um ofício à plataforma TikTok pela morte de uma menina de 8 anos no Distrito Federal. Sara Raíssa Pereira morreu depois de participar do desafio do desodorante que circula na rede social. 



Narração Luiza: Duas meninas de 8 e 11 anos faleceram recentemente depois de tentar esse desafio do desodorante. Teve uma fala do pai de uma delas que pegou muito a gente. Ele achava que o perigo estava na rua, que a filha dele estava segura dentro de casa e foi justamente dentro do próprio quarto que ela morreu. A gente até já falou sobre isso no episódio 2 aqui do podcast, sobre o momento em que a rua começa a ser demonizada, fazendo com que as crianças percam o acesso ao espaço público, ali na frente de casa. Acesso às brincadeiras, ao encontro entre as gerações e ao formato de comunidade, onde as crianças são responsabilidade de todos. Então, a gente tem cuidadores muito pouco preparados para entender os perigos e os limites do online e para conversar sobre isso com as crianças e adolescentes. Trancar as crianças dentro de casa nunca foi uma boa solução e tirar elas do mundo digital também não é. O que a gente incentiva aqui é que os cuidadores e os tutores se informem, se eduquem sobre o território digital e que tenham um diálogo aberto e sensível sobre isso com as crianças e adolescentes.

 

[27:36] 

Entrevistado Jorge André Barreto – Investigador da Polícia Civil: Meu nome é Jorge, sou investigador de polícia no interior de São Paulo, da Polícia Civil, atuo na unidade de inteligência e estamos há 10 anos com o combate ao abuso infantil, não só no estado de São Paulo, como também no Brasil todo. Desde quando a gente começou a fazer grandes investidas na Deep Web, investigações, operações, houve uma imigração muito grande para as plataformas TikTok e Kwai. E o que acontece? Por quê? São plataformas que dificultam muito o trabalho da polícia. E para essas pessoas, esses abusadores, eles acharam uma forma de fácil acesso, de fácil contato com essas crianças, porque eles vão e sugerem danças, muitas delas supervisionadas com os pais, sugerem vestes, tipos de roupas, e essas crianças vão produzindo esses materiais, querendo ganhar like, divulgação, notoriedade. Eles pegam esses materiais e transformam em materiais de abuso. E a gente percebeu que muitos pais apoiam, porque eles não enxergam que aquele material depois vai ser usado para um abuso infantil. Ele não enxerga isso.

 

[29:06]

Narração Luiza: Essa foi, com certeza, uma das entrevistas mais difíceis que a gente fez. O cara tinha muita história para contar, e muitas eram sobre casos pesadíssimos e super complexos, mas outras eram reflexões sobre a facilidade que os abusadores têm de passear nos caminhos digitais. 

 

[29:24]

 

Entrevistado Jorge André Barreto – Investigador da Polícia Civil: Na Deep Web não tem uma política de segurança, não tem norma, não tem regra, predomina ali muito a liberdade sua de expressão e o anonimato, as pessoas usam isso para cometer crimes. A surface ali, hoje, se concentra 90% dos casos de abuso. 

 

Narração Luiza: Quando o Jorge fala surface, que significa superfície em português, ele está falando da internet que é acessível ao público, sabe? A camada que aparece nas buscas, tipo o Google. Já a Deep Web, que em português ficaria “Web Profunda”, é a camada da internet que não está na busca. Você precisa saber onde procurar essas informações ou ser guiado por alguém para poder alcançar ela. 

 

[30:11]

Entrevistado Jorge André Barreto – Investigador da Polícia Civil: Porque, para se acessar a Deep Web, existe todo um mecanismo, toda uma robustez, todo um conhecimento. Às vezes, a pessoa não tem disponibilidade de tudo aquilo ali para querer acessar um conteúdo, ele vai lá e procura dancinha no TikTok. Então é mais fácil ele vai, corre no TikTok, pega um conteúdo desse do que acessar a Deep Web. 

 

[30:36]

Narração Luiza: A nossa luta é pelas infâncias, é claro. Por isso que a gente vai bater muito na tecla da regulação do espaço virtual. Até porque ele não afeta só criança e adolescente, mas toda a sociedade. Recentemente, o Supremo Tribunal formou maioria para que as empresas de tecnologia sejam responsabilizadas pelos crimes que acontecem em suas plataformas. Na prática, isso significa se comprometer a retirar conteúdos criminosos do ar sem a necessidade da ordem judicial. Hoje em dia, isso só acontece com ordem judicial, o que torna o processo lento e o estrago, grande. A regulação protege diretamente dos abusos, mas também ajuda a combater discursos extremistas que são crimes no Brasil, como o racismo e a apologia a violências. 

 

[31:24]

Entrevistada Flávia Gasi – Jornalista e Escritora: O começo da radicalização de extrema-direita nesses locais é com 11 anos. Os alvos têm 11 anos. Você chega num conteúdo de extrema-direita em apenas três vídeos, se você vai procurar Roblox ou Minecraft. E Minecraft ainda tem legislação anti trabalho infantil, etc… que Roblox não tem. Eu não deixaria meu filho estar no Roblox, sacou? De forma alguma. Porque é uma plataforma de exploração de trabalho infantil, é uma plataforma cheia de abuso e eles não fazem nada. 

 

[31:55]

Narração Luiza: Olha lá, trabalho e abuso juntos de novo. A Flávia tá falando do Roblox. Ele veio lá no episódio 2 como exemplo da exploração da mão de obra infantil invadindo o mundo online. Depois volta lá pra relembrar. 

 

[32:08]

Entrevistada Flávia Gasi – Jornalista e Escritora: Então a retórica da direita é muito simplista e, portanto, mais fácil de ser entendida. Especialmente antes dos 25 anos. Porque nós somos um bicho que demora muito para se formar, o nosso córtex pré-frontal só está pronto aos 25 anos. E o córtex pré-frontal é extremamente importante para você aprender a regular suas emoções. É por isso que o adolescente fica doido, entendeu? Tem a maior paixão, a pior decepção. Não tem córtex pré-frontal ainda. Então, onde que é mais fácil convencer uma pessoa de algo simplista? Até os 25 anos? 

 

[32:44]

Entrevistada Anna Lucia Spear King: Psicóloga Clínica – Doutora em Saúde Mental:  Os adultos são responsáveis, na realidade, pela vida digital dos menores de idade, porque eles têm toda a sua autonomia, nós temos que olhar para esse lado da adolescência com respeito e ouvindo esses adolescentes, mas eles também têm um cérebro muito imaturo, não têm vivências, não estão preparados para lidar com esse grande caldeirão de diversidade, de pessoas que interagem na internet com as mais diversas crenças, ideias e opiniões diferentes. A internet, esses jogos, essas coisas legais que os jovens fazem na internet, eles liberam muita dopamina, endorfina, serotonina no cérebro. Então, ninguém sabe, porque eles são leigos, o que está acontecendo. Mas naquele ambiente do jogo, eles fazem, por exemplo, criam um avatar, eles criam um personagem que os represente. Então esse personagem é forte, é guerreiro, tem roupas legais, tem carro, tem parceiros, é poderoso, tudo o que às vezes eles não se sentem, porque geralmente na adolescência, os jovens chegam num momento que tem baixa autoestima, o corpo cresce em umas partes, outras não, tem um crescimento irregular do corpo, é uma insegurança muito grande, uma necessidade de autoaceitação, de pertencimento a grupos. Então eles ficam muito vulneráveis nesse ponto, eles querem fazer tudo para se sentirem melhor. 

 

[34:22]

Narração Luiza: Sabe aquela série adolescência da Netflix que estourou em 2025? Spoiler, ela conta a história de um menino de 13 anos que assassina uma colega de escola. O ponto chave da série é tentar entender o porquê ele fez o que fez. A resposta é basicamente o que a Anna contou pra gente agora há pouco: baixa autoestima (ele se acha horrível), dificuldade de autoaceitação (ele sofre bullying) e vontade de pertencer (ele quer ser popular). Isso faz com que o protagonista se torne um alvo muito fácil para os grupos masculinistas, que querem doutrinar meninos pré-adolescentes. A história do Rafa Braga, que a gente vai ouvir aqui agora, ajuda a entender que não é de hoje que a cooptação online por parte de grupos extremistas existe. 

 

[35:13]

Entrevistado Rafael Braga – Designer de Jogos e Arte-educador: Comecei a jogar aquele jogo que eu queria jogar, o futebol, que tá ali, né, e os jogos de tiro, que era o máximo, o all concur assim na época, né? Então eu com o computador comecei a ficar próximo desses jogos, Counter Strike, jogos de tiro, e ser sociabilizado com essa linguagem que tinha. Então assim, eu não vou mentir, eu era um jovem tóxico também, então se você tinha uma mulher no chat ali que tá jogando, você vai xingar: “sai daqui porque você é péssima”. Mas pra mim era a mesma coisa que a gente tinha na rua. Era um bando de menino trocando essa socialização tosca. Até o momento, olha só como isso é bem maluco, estou ali de madrugada e esse clã tinha várias pessoas do Brasil inteiro e tinha um cara específico lá que era do Paraná, que era o dono. E ele fazia um trabalho muito massa de ir atrás de perfis, quem jogava melhor e tal. Ele fazia o time, é como se fosse um técnico. Então ali de madrugada esse server foi ficando mais vazio, mais vazio, até que um momento ficou eu e ele. E aí esse cara começou: E aí Rafael, de onde você é? Sou de Santo André e tal. A gente ficou bem amigo. E aí todo dia de madrugada a gente tinha essas conversas. Um dia ele chegou no cerco, estava eu e ele: Ah, vamos tirar um x1 e jogar aí. E aí, o que você gosta de política e tal? E ele era do Paraná, né? E ele começou: Ah, você gosta de Segunda Guerra Mundial? E o cara começou a me falar abertamente, tentar me cooptar para a ideologia nazista, assim, sem filtro, sem nada. Ele: porque Hitler era um cara legal e tal, você não acha e tal? Eu levei um choque e fui fingindo.. legal e tal, e fui meio que saindo. E aí depois disso, de um tempo, eu fiquei muito em choque, fiquei, cara, era um cara adulto me falando abertamente sobre o nazismo. E eu fui ver no site, assim, que era um grupo mesmo, né, e tal. O símbolo era uma águia. E aí tinha várias coisas que lembravam suástica, acho que foi, cara, era uma galera lá nazista cooptando adolescente e tal. Durante um tempo eu larguei o hábito de videogame, porque foi muito traumático. Eu falei, assim, porque eu não consigo nem descrever as coisas que ele me falou. Coisas que eram muito mais que só um papo furado, era sexismo, era ideologia nazista e eu percebi, poxa, cara, eu estava imerso no meio dessa galera tosca. Eu estou falando de, sei lá, 2006, 2007. Se naquela época já era assim, imagina o que acontece hoje em Discord, que são comunidades muito mais fechadas e eu queria fazer até uma defesa, Discord é uma ótima ferramenta. Tenho vários grupos de Discord profissionalmente, que são comunidades legais, mas ali dentro existe um submundo que a gente está vendo notícias aparecerem que não deve acontecer, mas a gente sabe que acontece coisa daí para pior, então violência…

 

[38:06]

Narração Luiza:  O Discord é uma plataforma de comunicação digital criada lá em 2015 com foco em gamers, feita para que eles pudessem conversar enquanto jogavam online. Essa rede é permitida só para maiores de 13 anos e ficou super popular entre os adolescentes. Mas ela acabou tendo seu objetivo inicial bem deturpado, já que hoje em dia ela tem sido utilizada para estimular crimes contra menores. O Rafa Braga é uma pessoa adulta, que mesmo naquela época teve um entendimento do que estava acontecendo naquela sala com aquele homem mais velho. Muitas crianças e adolescentes podem passar mais tempo sem perceber que é uma cilada. Houve a Mirelly falando sobre isso. 

 

[38:51]

Entrevista Mirelly Sant’Anna – Estudante do Ensino Médio: Eu recebi o meu primeiro celular da minha mãe e naquela época, como eu falei, era o Facebook. E aí eu já fui correndo, nem liguei para o WhatsApp, já fui baixar meu Facebook para colocar ali o meu e-mail. Caramba, minha primeira rede social, vou fazer vários amigos no Facebook. Aí do nada chega aquela mensagenzinha no seu messenger. E aí começa aquela conversa. E aí você começa a conversar. No começo é uma coisa super natural, vocês estão se divertindo, vocês têm o mesmo gosto. Isso aconteceu comigo. E aí, quando você vai ver, a pessoa que você só queria uma amizade legal, alguém pra jogar os jogos com você, pergunta se você pode mandar uma foto nua pra ela. Aí a pessoa começa a te xingar, te esculhambar como se você fosse errada. E aí você percebe que aquela pessoa não é o seu amiguinho de jogo que tinha 9 anos, mas um velho de 44. Na época eu tinha 11 anos, só que isso deixou um medo tão grande do Facebook naquela época que eu desinstalei, desativei a conta e até hoje eu não tenho mais Facebook. 

 

<<<<< Trilha Sonora: Chocalho e Clave >>>>>

 

[40:11]

Narração Luiza: Beleza, já sabemos da potência da internet para fazer a manutenção do sistema, mas cadê as revoluções, as revoltas, as contra narrativas? Boa notícia, elas também estão lá e estão vindo com força. Elas são múltiplas e espalhadas com muitas protagonistas, assim como é o próprio território digital. Lembra das ocupações secundaristas relatadas no episódio anterior? Como será que elas teriam rolado sem o auxílio dos velhos eventos do Facebook para mobilizar tanta gente? O caráter ativista estava presente desde os primórdios da internet, inclusive para garantir que o mundo digital fosse um espaço aberto e livre. As revoluções online não são só de narrativa, são também de formatos. E se tem uma coisa que a gente aqui da Cria Coragem é bom, é samplear e hackear as histórias brasileiras. 

 

[41:07]

Entrevistado Rafael Braga – Designer de Jogos e Arte-educador: Então foi se criando uma cultura onde a gente meio que hackeia o sistema mesmo. A gente vai construindo a nossa cultura digital de uma forma totalmente diferente. Isso faz do Brasil um lugar muito rico em ideias, um lugar muito rico em construção de imaginário. Então, a nossa técnica é muito mais importante do que a nossa tecnologia de ponta aqui no Brasil, porque a gente não tem acesso ao que o Norte Global tem. Então, a gente é muito mais ligado à técnica. Todo povo tem sua técnica, tem as suas cosmo-técnicas. Não só o computador é tecnologia, o tambor é tecnologia, o violão, enfim, os pincéis, tudo isso são tecnologias que povos desenvolveram em períodos iguais, mas de formas distintas. Então, por isso que são cosmo-técnicas. 

 

[41:55]

Entrevistada Flávia Gasi – Jornalista e Escritora: Mas eu acho que essa individualização dos fatos vem do nosso sistema capitalista. No nosso sistema capitalista, somos indivíduos. Você tem que vencer. Você é S.A., pequenas empresas. Você é que está na frente, nunca é o coletivo. Imagina games que não vieram do capitalismo, como Tetris, como Disco Elysium, games brasileiros, games que são feitos na periferia. Eles têm outra coisa. Tem muitos games no Brasil que são feitos em associação com aldeias indígenas e ajudam até crianças indígenas a se alfabetizarem. Isso não é o mercado do capitalismo tardio. Mas você não vai ver esses jogos. Você vai ver o Call of Duty, mas a maneira como a gente faz videogame hoje e como a gente joga, ela está totalmente imbuída dentro do capitalismo tardio. Então ela é extremamente individualista. Tanto que as histórias que a gente conta, isso não é só no videogame, é em tudo. São histórias da jornada do herói. O que é a jornada do herói? A jornada do herói é uma estrutura narrativa criada por um homem branco europeu baseado em outro homem branco europeu. 

 

[43:04]

Narração Luiza: Pois é, Flávia, a gente também não aguenta mais essa história baseada na jornada do herói e na individualização das lutas e pautas que, na verdade, são estruturais e coletivas. A boa notícia é que dá pra usar o espaço digital pra combater esse ideal de heroísmo. O mundo online também é ótimo pra gente criar o sentimento de pertencimento e de percepção da força do coletivo. As comunidades e relações podem sim mudar o curso das coisas. 

 

[43:34]

Maria Fernanda Barbosa Bina – Estudante do Ensino Médio: Oi gente, eu sou a Maria Fernanda, eu estudo no Damy também, eu sou presidente do Grêmio, atualmente eu faço parte da UMS que é a União Municipal dos Estudantes Secundaristas. Eu acho que as pessoas estão mais ligadas às redes sociais hoje em dia, então se a gente posta uma coisa lá, gera, tem um público alvo, certeiro ali, que vai começar a compartilhar, vai começar a dar valor. Então, assim, a gente vê um post sobre um ato no Instagram, a gente vê, ó, é perto da minha casa, no horário que eu posto. Vou estudar mais sobre isso, vou ver se eu vou. E se não tivesse as redes sociais, a gente iria ter que pessoalmente, iria ter que panfletar, iria ter que bater na casa das pessoas, falar, ó, vai ter isso e isso em tal lugar. Então, as redes sociais, elas ajudam a gente no compartilhamento e na divulgação, para a gente trazer pessoas. 

 

[44:25]

Narração Luiza: A Maria Fernanda estuda com a Mirelly no Ensino Médio e é presidente do Grêmio da Escola. Então, ela experimenta a mobilização online de muitos jeitos. 

 

[44:35]

Entrevistada Flávia Gasi – Jornalista e Escritora: Existe um monte de grupos de pessoas trans, de pessoas racializadas, de pessoas periféricas, em todos esses jogos, onde elas criam conexões de verdade. Na nossa pesquisa, a gente percebeu que tinha muita gente que morava numa cidade muito pequena e, às vezes, não existia outra transexual preta para ela conversar. Ela ainda não conhecia essa pessoa, mas ela conhecia dentro do jogo. Então, é um momento de troca que é valiosíssimo, que era para isso que a internet deveria ser feita. Você tem revoluções o tempo todo. Então você tem movimentos gigantescos de resistência e de aprendizado. 

 

[45:18]

Narração Luiza: Durante a pesquisa para esse episódio, o Alexandre Kishimoto, nosso antropólogo, pensou numa pauta que já existe, propondo reconexões para todo mundo, inclusive crianças e jovens. São propostas de vivências com um outro, com o próprio corpo e com o território onde se vive. É a prática do Bem Viver, alternativas de conexão comunitária e um modo de estar e de se relacionar com a natureza. Fomos buscar quem entende disso. A Juliana Gonçalves ajuda a aprofundar aqui alguns conceitos na prática. 

 

[45:56]

Entrevistada Juliana Gonçalves – Jornalista e Pesquisadora: Eu sou Juliana Gonçalves, sou jornalista, sou ativista dos Direitos Humanos, pesquisadora, sou mãe também de um menino de 10 anos. Eu acho que eu sou, antes de tudo, uma pessoa inquieta. Sempre fui perguntadeira, sempre fui questionadora. Tem muito disso também na minha pesquisa e porque eu me encantei pelo Bem Viver. Então, o Bem Viver é algo que, de fato, vai apontar caminhos para uma outra construção social. 

 

[46:32]

Narração Luiza: A Juliana Gonçalves estudou o Bem Viver, que ela conheceu na Marcha das Mulheres Negras de 2015. Como jornalista, ela se aprofundou nesse conceito ensinado por mulheres andinas e juntou a escuta e a interpretação de mulheres negras e indígenas brasileiras. Esse manual de sobrevivência que ela apresenta traz ferramentas mapeadas pelo feminismo negro e por valores e filosofias afro-brasileiras. 

 

[47:00]

Entrevistada Juliana Gonçalves – Jornalista e Pesquisadora: Eu acho que o início mesmo é a gente entender esse Bem Viver como uma possibilidade de criar outros imaginários e imaginários que vão criar outros mundos. Então, a gente realmente questionar as coisas como estão postas, todas elas, desde a estrutura da sociedade até a quem se beneficia o racismo, a quem se beneficia o patriarcado. Mas quando eu estudo a produção e entendo o que significa esse Bem Viver, ele se resume a alguns pilares. Então, um é, de fato, essa noção do coletivo e da comunidade. Não há, em sociedade, como a gente falar de um Bem Viver num olhar individual. Então, acho que a primeira coisa que eu acho que é muito revolucionária no Bem Viver é a gente realmente entender a sociedade a partir de uma outra construção, que não é essa construção de classe, que não é essa construção de castas, que não é essa construção que hierarquiza saberes, que hierarquiza conhecimento. Então, a gente tem que falar de comunidade e não só de uma sociedade ampla.

 

[48:12]

Narração Luiza: Acontece que o veneno também pode ser antídoto. E essa mesma internet que adoeceu as nossas crianças e adolescentes durante a pandemia da Covid também pode ser usada como um espaço de conexão com comunidades, brincadeiras e relações do mundo real. Todas essas coisas que os anos de quarentena tiraram das nossas crianças. O João, por exemplo, aquele estudante da ETEC, ele se mudou para o Jardim Pirituba em São Paulo na pandemia. Ele tinha oito anos e ele ficou sem contato com esse bairro até que… 

 

[48:47]

 

Entrevistado João Juliete Rosa Andrade de Souza – Estudante do ensino médio na ETEC: E aí apareceu lá um shorts de youtuber de Batalha de Rima. Aí eu vi, caramba, nossa, que legal. Comecei a acompanhar mais, né, mais de perto. Aí eu comecei a ver uns vídeos mais longos, ver uns compilados de rima, até que eu vi uma batalha ao vivo, só que ainda na internet. Aí uma hora eu… teve lá um evento muito grande de batalha de rima e eu comprei um ingresso pra ir na batalha da aldeia, batalha da aldeia especial de oito anos. Esse foi o primeiro que eu fui, né? E eu gostei muito assim, foi da hora e foi algo que eu conheci da internet né? Normalmente eu nem saio muito pra fazer coisas aqui eu encontrei no próprio lugar que era do lado da minha casa o que eu nunca ia perceber por causa da internet. Eu encontrei algo no meu bairro. 

 

Entrevistada Juliana Gonçalves – Jornalista e Pesquisadora: E a comunidade vai se criar a partir dos territórios, a partir dessas vivências específicas e que vão se ampliando em diversos sentidos. Tem gente que fala de sonho, utopia, mas eu prefiro falar, até citando o Nego Bispo, falando de imaginário. Então, a utopia pode ser aquela coisa que a gente nunca vai alcançar, mas que talvez valha a pena o caminho mesmo assim. E o imaginário acho que dá conta de ser algo que, bom, vamos imaginar e, a partir disso, conseguir abrir o olho, acordar e viver aquilo de alguma forma. Esse outro ponto também que eu trouxe, então, a diversidade. Então, quando a gente pensa numa construção, principalmente nós aqui no Brasil, que fomos colonizados, assim como boa parte do mundo, por meio de Europa e das Américas, a diversidade é sempre vista como uma coisa ruim, né? Tipo, o inferno são os outros, é o outro que tem problema. Então, como essas sociedades entendem que não, que a diversidade é algo positivo e é algo que nos ajuda a caminhar melhor e não ao contrário. Então, eu não tenho uma necessidade de te catequizar ou de fazer você pensar como eu penso ou de impor a minha cultura para você. Então, a diversidade enquanto uma ferramenta. 

 

[51:07]

Narração Luiza: O Diogo Carvalho, estudante secundarista, que também deu entrevista no episódio 3, enviou uma reflexão sobre como ele tem se sentido no universo do online. 

 

[51:18]

Entrevistado Diogo Carvalho – Estudante do Ensino Médio: Ultimamente tem sido prazeroso ver que o meu corpo é representado de diversas formas diferentes. A internet, o meio digital, a área digital, ela vem com grande força nesse movimento de autoaceitação, de você enxergar o seu corpo como potência. 

 

[51:39]

Narração Luiza: Diversidade como ferramenta, sim. Lutando pela vida em uma guerra de narrativa. Essa pauta amarra muita coisa nesse nosso episódio. O padrão mais disseminado pelas redes não é só o de beleza, branco, jovem, etc. O que adoece as pessoas no espaço digital e fora dele é também uma normatização de como ser, como amar, como existir. A diversidade é contra-feitiço, quebra o padrão. O seu passeio no digital é de cura ou adoecimento? E das crianças que te cercam, dá para buscar outros conteúdos com elas? Aqui, na bibliografia e canais da Cria Coragem, a gente tem o compromisso de indicar materiais que possam propagar diversidade. O Rafa Braga lembrou de um exemplo prático dessa batalha no online. 

 

[52:29]

Entrevistado Rafael Braga – Designer de Jogos e Arte-educador: Então, se a gente for pensar, por exemplo, no maior portal de educação do Brasil, que talvez as pessoas saibam qual é, ele é um projeto de criação de narrativas que são falsas e que é uma invenção de um apagamento de toda a história do Brasil para contar uma outra história. E esse portal é riquíssimo, ele tem investimentos milionários e está aí com propaganda o tempo inteiro para as crianças, para os adolescentes e ainda por cima ele está entrando na escola pública através de autoridades que estão contratando e inserindo mais dinheiro para que se crie esse projeto contando toda uma outra narrativa sobre o que é o Brasil. E aí, dentro da tecnologia dos video-jogos não é diferente, a gente vai ter ali uma intenção de que essas narrativas que sejam contadas não sejam as narrativas que falem sobre diversidade, que falem sobre o povo preto, que falem sobre a periferia. Eles querem contar uma outra história. Então, a indústria é um pouco sobre isso, é sobre criar esse imaginário para que no futuro não se veja essa possibilidade de certos corpos estarem ali em destaque, estarem nas narrativas.

 

[53:52]

Entrevistada Juliana Gonçalves – Jornalista e Pesquisadora: E aí quando eu penso nessa questão da diversidade, eu acho que tem algo muito subjetivo que é colocado até num ponto inconsciente, que é esse auto-ódio que muitas pessoas racializadas têm, que muitas vezes contra si, contra a sua que, óbvio, não é culpabilizando essas pessoas, isso já é um fruto, já é a resposta de tanta violência, mas o quanto foi importante para mim positivar cada vez mais a existência do meu filho pra ele mesmo, né? Às vezes ele fala: Mãe, mas assim, ali na raiz meu cabelo é liso. Eu falo, não, filho, seu cabelo é crespo e é bonito e é bom que ele seja crespo. 

 

[54:349]

 

Entrevista Mirelly Sant’Anna – Estudante do Ensino Médio: Como se você postasse uma foto no seu Instagram e você só recebesse 12 curtidas e você começasse a ficar mal. Mas, mano, pensa você estar ali com seus amigos e aí chega 12 pessoas na sua frente e fala, caramba, seu cabelo tá muito foda. E aí você percebe, mano, o que são 12 curtidas para 12 pessoas que estão te elogiando ali na sua frente? Mano, a pessoa te achou bonita, ela gostou do seu conteúdo, você é foda pra caramba pra ela, ela vai e te elogia. Aí eu percebo que muitas das vezes a tecnologia pode ajudar a gente de diversas formas, mas ela também está ali para te destruir. 

 

[55:07]

Entrevistada Juliana Gonçalves – Jornalista e Pesquisadora: Então, que não existe Bem Viver sem a gente realmente estar lúcido das coisas. De como pessoas confusas e menos lúcidas são facilmente tuteladas, controladas, e essa relação do corpo com a natureza. Então, uma amiga muito querida, que se chama Carolina Amanda, ela fala que o corpo tem tudo que a natureza tem. Então, quando a gente pensa em sais minerais, quando a gente pensa na água, como esse culto à natureza, que é tão intrínseco a esse Bem Viver, quando ele fala sobre mulheres, a gente está falando também sobre o nosso corpo e a gente olhar o corpo, entender o corpo enquanto um lugar soberano, um lugar do ritual. E, por fim, esse lugar do descanso e do ócio, como é importante esse lugar. Então, isso que o Bem Viver nos convida ao ócio, assim como um tempo não produtivo e não tutelado.

 

[56:06]

 

Entrevista Mirelly Sant’Anna – Estudante do Ensino Médio:  Você fica às vezes tão presa nessa tecnologia que você não consegue ficar no foco principal. Às vezes a sua amiga tá ali falando de uma coisa tão legal pra você, ela conseguiu uma oportunidade única e você tá lá: Aham. Olha esse vídeo, amiga. Nossa. Ah, vou pintar meu cabelo dessa cor. Uhum. E às vezes ela passou, tá passando por um momento tão difícil e você é aquela única pessoa ali que tá do lado dela e ela só quer conversar com você porque pra ela você é o porto seguro dela. E aí você olha depois de um tempo, às vezes você tá em casa do nada, acabou a luz por causa da chuva, não tem celular, não tem nada. É você e você ali. E você começa a perceber, caramba, ela tava falando daquilo pra mim, né? E eu não dei apoio pra ela. Nossa, aquilo era tão importante, caramba! 

 

[56:56]

Entrevistada Juliana Gonçalves – Jornalista e Pesquisadora: Esse cuidado e autocuidado foi talvez a primeira percepção das mulheres negras desse Bem Viver, não foi o capitalismo, não foi ser contra sistêmico, não foi imaginar outros mundos, foi o como mulheres racializadas, vilipendiadas de direitos, entenderam que se cuidar, estarem bem era muito necessário para que elas tivessem disposição física, mental e espiritual para construir outros imaginários. 

 

[57:22]

Narração Luiza: Não existe solução nenhuma sem corpo forte, protegido e com possibilidade de felicidade. Cria Coragem sempre acreditou nisso, para crianças, adolescentes e adultos. A gente nunca deixaria essa temporada acabar sem perspectiva, sem proposta de melhora. A nossa luta tem horizonte, gente. Rumo para o mundo com cura. 

 

[57:45]

Entrevistada Juliana Gonçalves – Jornalista e Pesquisadora: Como as comunidades tradicionais lidam com as pessoas doentes, não é apartando elas, o problema é seu, você que está aí com a sua questão, vai lá. Não, são rituais coletivos que vão fazer com que aquela ferida que está naquela pessoa agora, mas amanhã pode estar nela, pode estar nela, que aquilo não se expanda. Então, é trazer o coletivo como esse lugar também, que é um lugar da cura. E, por fim, terminando, como o Bem Viver nos ensina a cuidar do que entra, do nosso alimento, de conseguir pensar realmente o quanto hoje faz parte do projeto de morte de muitas populações, essa questão do alimento industrializado. Assim como o genocídio, a morte, o encarceramento, a comida também é um ponto que nos mata, né? Então, como a gente precisa aprender a entender o que entra, mas também o que sai da nossa boca. E aí o que sai é no sentido mesmo do poder das palavras, né? Do poder das palavras. 

 

[58:56]

Narração Luiza: O poder das palavras no nosso tempo está fortemente conectada com a nossa presença online. Mas será que a gente se dá conta disso? O que produzimos e postamos são palavras-feitiço, que podem caminhar no mundo e interferir em realidades que nem imaginamos. Se a palavra é flecha, por onde voa? O que encontra? Quais alquimias queremos que elas provoquem? 

 

[59:21]]

Entrevistada Flávia Gasi – Jornalista e Escritora: Quando a gente começou a fazer campanha para a desradicalização, todas elas funcionaram. Todas elas funcionaram. E isso também tem muitos dados. Se você pega até o velhinho que está lá vendo um monte de notícias de extrema-direita e você troca essas notícias de extrema-direita por apenas notícias, ele tende a relembrar das suas conexões humanas e parar de ser de extrema-direita em muito pouco tempo. Então, eu acho que o que foi instrumentalizado pela extrema-direita foi o nosso medo. A gente tem que parar de deixar que instrumentalizem o medo das crianças. É isso. Esse é o nosso papel. Porque uma criança que tem receio, que entende de onde está vindo o seu medo e atua no mundo, é uma criança com potências infinitas. Uma criança que atua apenas pelo seu medo é uma criança que tem um caminho só.

 

[01:00:14]

Entrevistada Juliana Gonçalves – Jornalista e Pesquisadora: E o caos não está por vir, o caos está agora, aqui. Não nós aqui, obviamente, mas quando há a normalização mesmo dessas violências, como a normalização de abuso, como a normalização como parte de uma engrenagem, parece até que o corpo está sendo sacrificado em nome de algo maior. E não tem algo maior, não há. O que há é o grande capital se fortalecendo cada vez mais em detrimento das pessoas. Então, o Bem Viver aponta caminhos sobre o que vem depois do caos. Eu acredito sim que, ancorado no Bem Viver, a gente pode falar de infâncias mais saudáveis, infâncias onde esse número de abusos que existe seja realmente diminuído em muito, a partir de uma emancipação, que não é só daquela criança, mas de todo um sistema em torno dela. Então, essas crianças precisam também de adultos saudáveis para poder fazer esse papel de fato de proteção e para alimentar essas crianças de ferramentas de autoproteção e autopreservação. 

 

[01:01:24]

Narração Luiza: Uh, que jornada! Nessa temporada, tocamos em várias feridas, tentando curar algumas delas. São muitos os espaços onde a opressão acha morada. Quais são as falas do nosso dia a dia que sustentam o pensamento machista, racista, que é a base da exploração das minorias? E sabem de onde vem esse pensamento? Daquela ideia bem antiga de um homem forte dentro de casa comandando a família, como se a mulher e a criança fossem sua propriedade, submissas à sua vontade. Aquela famosa frase, né? Criança não tem que querer. É praticamente um resumão de como a nossa sociedade ainda vê as infâncias. Seres que devem ser mandados, controlados e moldados de acordo com o que o responsável deseja, o que ajuda e muito a perpetuar uma série de abusos. Por um lado, porque a fala de criança quando denuncia um abuso muitas vezes não é ouvida, por outro, porque muitas crianças são doutrinadas para acreditar que abuso é normal, inevitável e mais cruel ainda, que é algo que está associado a amor e carinho. 

 

Comunidade, autoestima, formas de viver e de se relacionar com o outro, aprendizados do corpo e da mente, coletivos, revoluções. Esses são os temas centrais que a temporada Cria Histórias trouxe e buscou expandir. A temporada terminou, mas as reflexões seguem firmes e fortes. 

 

O medo gera controle e é contra essa estratégia que lutamos também. Esperamos que você tenha encontrado aqui alguma esperança, solução ou ferramenta. Então, segue a gente para continuar defendendo as infâncias e adolescências sem tabu, sempre com informação verificada e argumento de qualidade. 

 

E se o assunto é difícil, 
Cria Coragem!

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