Podcast EP #03
A escola que forma — ou deforma?
INTRODUÇÃO
Narração Luiza: Esse é um podcast que busca desnaturalizar as violências cotidianas, aprofundando reflexões. Talvez algumas histórias aqui te toquem pessoalmente, pois são as histórias de todos nós. Fica aqui, então, um aviso de gatilho possível.
<<<<< Trilha Sonora: Chocalho e Clave >>>>>
[00:22]
Narração Luiza: O que você vai ser quando crescer? Já tá mais do que na hora de deixar essa pergunta pra trás, né? As crianças e os adolescentes são seres completos. Todas as fases da vida têm o seu próprio aprendizado. Mas Como e O Que a gente aprende, aí sim, essas são perguntas importantes para esse episódio.
<<<<< Trilha Sonora: Chocalho >>>>>
FICÇÃO
[00:49]
Narração Luiza: Era uma vez dois pés que escavavam aquele bando de terra para conversar com as minhocas. As perninhas dela procuravam só brincadeira, nada mais. Os braços fortes da mãe procuravam sustento. A barriga da menina achava manga do pé. Um dia, outras mãozinhas lhe ofereceram um punhado de tanajuras e ela aprendeu que formiga era de comer também. Ela tinha uma amiga favorita e com ela descobriu uma máquina de cimento. De dentro da máquina, a cabeça dela virava, vendo o mundo todo girar: Terra e céu, céu e chão. Terra e céu, céu e chão.
<<<<< Sonoridade de máquina de cimento girando, crianças rindo >>>>>
[01:32]
Narração Luiza: Um dia, o abraço da mãe veio com um par novo de tênis e a notícia: “Sua tia arrumou emprego pra mim, em São Paulo”. Emprego. O ouvido da menina não lembrava dessa palavra, não.
<<<<< Sonoridade de cidade, carros passando >>>>>
[01:46]
Narração Luiza: Demorou pra chegar na cidade grande. E aí os olhos viram aquele tudo. Entraram no tal emprego, e aí não viram mais nada. A casa era gigante, mas o quartinho delas era pequeno demais até para o sonho. A menina e a mãe não tinham nem janela, nem TV, e era só um cobertor. Na parede, o pôster do Zezé Di Camargo e Luciano. Não cabia nem a alma. Os santos e os Orixás também tiveram que ficar para trás. Agora, os pés viviam no piso frio.Os braços da mãe lavavam. As pernas tinham que conter a vontade de correr. Os braços da mãe passavam. As mãozinhas levavam sempre uma bronca. Os braços da mãe, cozinhavam. E era nesse momento que vinha a lembrança da casa antiga do interior, o cheiro colorido temperava a saudade. Mas daquela comida, a boca não podia provar. Na casa grande, tinha até criança para brincar, mas estranhamente, a outra menina podia correr e abrir a geladeira sempre que queria. Provavelmente nunca tinha provado tanajura. Era do quartinho para a perua, da perua para a escola. Tinha muito o que olhar naquela cidade, mas o vidro escuro dava só promessa. Até aquele dia em que o tio da perua tocou a menina. Aí os olhos se fecharam com força.
<<<<< Som de sirene: sinal de escola tocando >>>>>
[03:16]
Narração Luiza: Primeiro dia de escola e os dedos grudaram no portão azul feito os sapos que ela conhecia. A menina não queria entrar no colégio de jeito nenhum. Foi outra mão, pequena e escura como a dela, que disse: Vem logo, tá tudo bem. Moravam duas árvores dentro do muro cinza da escola e tinha só 15 minutinhos por dia para poder subir nelas. Não durou muito aquele emprego da mãe. Palavra que o corpo dela, agora com 9 anos, já sabia exatamente o que era. A menina e a mãe foram morar numa pensão lá no Largo da Batata. Eram 20 quartos e só dois banheiros, todos com cheiro e voz de homem. As contas eram muitas e davam pontada na barriga da menina e essa equação a escola não ensinava como resolver.
[04:11]
Narração Luiza: Mas pelo menos agora elas saíam para a rua. A menina, já crescida, acompanhava a tia nas passeatas e gritava junto de muitas outras vozes como a sua: de mulheres escuras. Foi ali nas manifestações que os seus ouvidos aprenderam a separar as palavras como se faz com os feijões, os bons dos ruins. Tinha notícia que era ruim demais e dava vontade de jogar no lixo ou na terra para ver se virava outra coisa. O corpo cresceu, a escola já era outra, mas o livro parecia sempre o mesmo e dava muito sono. A boca rejeitava até a merenda, mas as ideias da professora revelavam um mundo de possibilidades onde a menina fazia parte. Chegavam notícias cada vez piores. Reorganização. Era assim que o governo chamava o fim da escola dela, que ia virar uma… delegacia? Estava certo aquilo?
[05:06]
Narração Luiza: Tão jovem, com pouca certeza, mas uma coisa sabia. Fechar escola? Ah, isso está errado. Isso não podia. Ela deu aviso de sala em sala. Nada se moveu. Foi com alguns colegas até a Secretaria de Educação e nada se moveu. Alguns alunos ali, na Zona Oeste de São Paulo, eram bem diferentes dela, mas falavam de revolução, pinguins, Chile e isso sim fervilhou uma ideia boa na cabeça. E como diz o ditado, né? Quem não pode com a formiga, não atiça o formigueiro. Os alunos se encontraram no mesmo Largo da Batata que ela morava. Eram cinco da manhã e o corpo sonolento sentia a madrugada quente de Novembro. Juntos caminharam até a escola, juntos ocuparam. As mãos dela já não eram mais pequenas, mas seguiam escuras. Foi naquele momento que os dedos sentiram o peso imenso daquele molho gigante de chaves que abria cada uma das portas daquela escola.
<<<<< Trilha Sonora: Chocalho e Clave >>>>>
[06:26]
Narração Luiza: Bem-vindos ao nosso podcast. Eu sou Luiza Akimoto, pesquisadora e sonoplasta da Cria Coragem e vou conduzir essa caminhada sonora. Esse é o nosso terceiro episódio da temporada Cria Histórias. Nos episódios anteriores, você pode encontrar histórias que nem eu mesma conhecia. Por exemplo, a revolução dentro das fábricas lideradas por crianças trabalhadoras. Recomendo, hein? Vai lá conferir.
Narração Luiza: Hoje a gente vai entrar pelo portão da escola. Esse espaço que a gente passa a maior parte do tempo quando a gente é criança ou adolescente. E se a nossa luta é contra os abusos, justamente nessa fase, então como falar de autonomia e corpo na sala de aula? A escola nos prepara para quê? Questões polêmicas, né? Então, se o assunto é difícil, Cria Coragem.
[07:22]
Entrevistada Flavia Bischain | Professora: A escola pública no geral, ela sempre foi pensada e sempre correspondeu, mais ou menos, à situação do trabalho numa determinada sociedade. Então, hoje, principalmente depois da reforma trabalhista de 2017, a gente viu acelerar o processo de precarização do trabalho. Às vezes a gente fala que a gente quer uma educação de qualidade para os filhos da classe trabalhadora. Hoje mesmo eu estava lá corrigindo a atividade e uma aluna estava na fila, me esperando para me receber e ela falou: Professora, a gente tem que acabar com essa escala 6×1, porque eu não aguento mais. Então, já é parte da vida deles as contradições do trabalho. Bom, eu sou a Flávia, desde 2011 eu trabalho na escola no bairro em que eu nasci, que é a Brasilândia. Ainda dou aula na mesma escola que foi, inclusive, a única escola da Brasilândia ocupada na época das ocupações estudantis em 2015.
[08:26]
Narração Luiza: A nossa caminhada mostrou que, infelizmente, quase todo mundo tem uma história de abuso na infância. Só que, mais importante que isso, entendemos que todo mundo tem uma história de revolução na infância. E é aí que colocaremos nossa luz. Eu tenho algumas histórias para contar também. A professora Flávia foi a minha professora do ensino médio e ela acompanhou de perto o momento em que nós, estudantes secundaristas, ocupamos o Damy e muitas, muitas outras escolas em 2015. Você se lembra disso? Foi grandioso. Mais de 800 escolas e institutos federais no Brasil todo foram ocupados para tentar barrar uma reforma que prejudicava toda a comunidade escolar. Foi um movimento intenso e mostrou que mudar profundamente o que acontecia dentro daquelas salas de aulas não era nada impossível, não. Pelo contrário, dava para revolucionar tudo em uma semana.
<<<<< Som de adolescentes abrindo um portão de ferro >>>>>
[09:28]
Adolescentes falando em jogral: Vamos ocupar as escolas. Contra a reorganização.
Adolescentes cantando: Pula sai do chão, quem defende a educação!
[09:43]
Entrevistada Marcela Reis | Atriz e participante das ocupações: Gente, ocupar, a gente fala isso agora, porque a gente já passou, só que na época era algo tipo “óhhh”. A gente não sabia se a gente ia poder ficar na escola, o que eles iam fazer com a gente. A gente não sabia se a gente ia aguentar ficar dez horas na escola, duas horas na escola. A gente fez um mapa da planta da escola, então a gente sabia quantos portões tinham, daí a gente dividiu: Você vai estar nesse portão, a gente vai entrar, você vai pra esse portão, você vai pra esse portão, você vai pra esse, você vai trocar ideia com o inspetor. Então, tipo, tudo isso era extremamente organizado. E eu acho muito dahora pessoas daquela idade fazerem isso. Eu fico emocionada quando eu falo, porque eu acho que, eu não sei se é em todo o mundo, mas pelo menos aqui no Brasil, a gente não leva adolescente a sério. Bom, eu sou a Marcela, eu tô com 27 anos agora. Eu sou do interior, eu sou de Cravinhos, perto de Ribeirão Preto.
[10:43]
Narração Luiza: Sabe aquela foto marcante das ocupações onde uma estudante disputa com um policial militar a cadeira de sala de aula no meio da rua? Pois é, aquela menina era a Marcela, que você acabou de ouvir. Ela ocupou a escola na Zona Oeste de São Paulo. Se você não conhece essa foto, confere os materiais desse episódio lá no nosso site.
[11:05]
Entrevistado Thiago Araújo | Co-fundador do Coletivo Prevenção Para Todes e participante das ocupações: Chegou um ponto, que eu acho que foi o ponto auge em 2015, que foi quando rolou um boato de que a escola iria se tornar de ensino único e que ia sair pelo governo uma lista oficial com 94 escolas que fechariam.
[11:25]
Narração Luiza: Esse que você ouviu agora é o Thiago, meu colega mais novo, que também estudava no Damy em 2015.
[11:32]
Entrevistado Thiago Araújo | Co-fundador do Coletivo Prevenção Para Todes e participante das ocupações: O governo lançou umas propagandas falando que ia rolar um tal de dia E da educação, que era quando os pais saberiam o que era essa reorganização e para onde seus filhos iriam. O interessante desse dia é que os alunos não poderiam ir. Mas aí eu acho que esse dia E foi um grande tiro no pé. Porque foi nesse dia E que os alunos do Damy, nós enquanto estudantes, sentamos lá embaixo enquanto estavam todos os pais nas salas e decidimos que era preciso fazer alguma coisa.
[12:05]
Narração Luiza: Então, já que os estudantes não foram chamados nem para opinar, eles mesmos decidiram o que fazer.
[12:12]
Entrevistado Thiago Araújo | Co-fundador do Coletivo Prevenção Para Todes e participante das ocupações: Já tinha, se eu não me engano, algumas escolas ocupadas. Na época, a filha da diretora também estava nessa reunião e aí eu lembro que a ideia partiu dela. Ela falou, gente, está rolando um movimento de ocupação nas escolas, o que vocês acham da gente fazer isso aqui? Beleza, rolou essa primeira assembleia, passamos o cadeado. A orientação que hoje a gente sabe que foi dada para a direção da escola, foi: cumpram o horário de vocês na direção da escola, os professores que forem chegar, cumpram o horário de vocês, quando der o horário, 10 horas, vocês desocupem o prédio e mantenham eles aí. E aí a gente tinha essa relação de confiança mesmo com a direção. E aí também o lance de dialogar mesmo, olha, a gente vai passar o cadeado aqui na direção porque a gente não tem interesse em ocupar a direção em si, em quebrar a secretaria, nada disso.
[13:09]
Narração Luiza: Eu mesma não consegui ver o exato momento que eles fecharam o portão e mandaram a diretora embora. Eu tinha uns 17 anos e eu trabalhava desde os 12. Nessa época eu era jovem aprendiz e cheguei na ocupação de noite, já bem atrasada e vestida com um terninho preto que eu herdei da minha irmã mais velha. Quando eu cheguei lá, a galera abriu o portão, eu entrei e comecei a entender como é que estava o movimento. A ocupação foi um levante grande, nacional, duradouro e principalmente de base popular. Foi resultado da história de cada um dos estudantes. Foi um pedido de basta, que talvez a gente nem entendesse na época, mas que vinha de outros tempos.
[13:50]
Entrevistado Thiago Araújo | Co-fundador do Coletivo Prevenção Para Todes e participante das ocupações: Bom, eu nasci aqui na Brasilândia, na Cachoeirinha. Minha família sempre foi muito humilde. Lembro da minha mãe passando fome, o lance de partilhar mesmo. Depois de um tempo, acho que, como em várias famílias aqui da Brasilândia, várias famílias de regiões periféricas, a igreja entrou e pegou um papel fundamental. Então, inauguraram uma igreja aqui no bairro, minha mãe começou a trabalhar nessa igreja. Ao mesmo tempo que a gente ia crescendo, dentro da igreja, com o evangelho e tudo, a gente também se alimentava por conta da igreja, que contribuía muito dentro de casa, não só com salário, mas com alimentos também. Eu acho que eu comecei a me mobilizar por conta da mobilização dos professores mesmo. Eram muitas greves. Eram greves de 15, 30 dias. E aí os professores continuavam derrotados, voltavam com semblantes tristes. Aí eu, tá, mas o que vocês querem com a greve? O que está acontecendo? E aí tinha um professor muito específico que dava aula de Geografia, que ele falou, me explicou por cima: Está tendo cortes e vai ter uma manifestação tal dia, e se você quiser ir, você pode ir com a gente. Foi a primeira manifestação que eu fui, na época eu tinha 12, 13 anos, era muito novo mesmo.
[15:11]
Narração Luiza: Eu também já estava engajada em muitas mobilizações naquele momento. Assim como a do Thiago, a minha família já tinha uma história de luta que de longe não era uma escolha nossa, era uma necessidade. As pastorais, as associações de moradores, os mutirões de construção, eu, o Thiago e muitos outros jovens periféricos já tinham muita ideia de como se organizar dentro e fora do mundo oficial do trabalho.
[15:37]
Entrevistado Thiago Araújo | Co-fundador do Coletivo Prevenção Para Todes e participante das ocupações: Na época eu trabalhava numa gráfica, fazendo sacolinha, recebia dois reais por hora, então falei lá também, gente, não vou, não vou poder ficar mais aqui esse período, vou ficar na ocupação. E aí a gente começou a se dividir dentro da ocupação por comissões, desde o primeiro dia. Então, a comissão de limpeza, comissão de alimentação, comissão de segurança, comissão de programação. E aí o interessante da ocupação foi que foi tudo muito horizontal. Não tinha uma cabeça-chefe. A cabeça-chefe é todo mundo junto. E aí, beleza, começou esse lance da polícia mais ostensiva. E a gente pensando em programação para dentro da escola. Então, no primeiro dia já teve uma programação super doida, super diferente do que a gente aprendia. Não vai ter matemática, mas tem um cine-debate. Não vai ter matemática, mas aí tem uma oficina. E aí a gente começou a expandir um pouco os contatos. Outra escola aqui da região foi ocupada. Vamos lá ver como que é?
[16:37]
Narração Luiza: As ocupações eram um espaço diverso, cheio de coisa para fazer o tempo todo. Agora a gente tinha na mão não só aquele molho de chave imenso, mas também a responsabilidade de manutenção daquele espaço 24 horas por dia. Pensar as aulas, trazer mantimentos, organizar a segurança. Muitas lideranças eram jovens mulheres. Foram vários os professores que, mesmo bem mais velhos, passaram dias na porta para evitar a violência policial. Especialmente nas escolas de quebrada, onde a mídia aparecia bem raramente e não tinha muito holofote ou show de famosos, como nas escolas do centro de São Paulo. Quando a noite caía, as energias variavam. Tinham momentos de muita música e risada, lógico, um bando de adolescentes junto. Qualquer regra, briga, conflito, tinha que ser resolvido em assembleia, aprendizado coletivo mesmo. Mas tinham horas que eram sinistras também, em que a polícia ameaçava, entrava, mexia com o medo de cada um ali. Ninguém vira ativista assim, da noite pro dia não. Ocupar uma escola, uma rua, um bairro, um país, dá trabalho, viu? Nenhuma criança ou adolescente sonha com isso. A gente queria mesmo era brincar, correr, começar a namorar, descobrir o outro, sabe? Mas no lugar de tudo isso que a Malhação e a revista Capricho vendiam ali, no nosso High School Musical, tinha mesmo era muita luta. A história da Marcela também fala um pouco desses caminhos cruzados.
[18:11]
Entrevistada Marcela Reis | Atriz e participante das ocupações: Eu tinha uma tia que faleceu em 2020. Ela veio pra São Paulo já jovem também, ela veio pra estudar e tudo mais. E aí, quando eu era pequena, ela insistia muito pra minha mãe, né? Meu, vai pra São Paulo, eu acho que lá vocês vão ter mais oportunidade do que aqui. Aí a gente veio pra São Paulo, a minha tia já tinha arranjado um emprego pra minha mãe numa casa de família, que era a casa que a minha tia trabalhou a vida inteira. Ela criou os filhos dessa família. E a gente morava na casa dessa patroa, no quarto dos fundos. E eu sempre costumo falar que eu sinto que foi, que a minha infância foi interrompida. Porque eu tava no interior, brincando na rua descalço, e aí eu vim pra cá morar no quartinho dos fundos de uma galera rica. Essa família tinha uma criança, que era a neta da patroa da minha mãe, e a gente se amava, gostava muito, eu era um pouquinho mais velha, só que a gente era grudada, toda vez que ela ia lá, a gente se amava, brigava, ia fazer as pazes e tal. Eu acho que foi ali que eu comecei a ver que tinha uma diferença, que tinha alguma coisa acontecendo. A gente criança percebe, né? Tem alguma coisa acontecendo. Essa menina é diferente de mim, ela não é igual a mim. Depois eu fui para o Fundamental, no Olavo Pezzotti, ali na Vila Madalena, uma escola pública. E ali foi onde eu realmente vi, tipo assim, tudo você vai viver na escola. O primeiro racismo que eu me lembro, que eu me recordo, foi lá. Essa palavra nunca foi dita nessa escola.
[19:51]
Narração Luiza: Você aí ouvindo, se lembra da sua escola como? A escola é mini mundo mesmo. Tudo que tem na sociedade vai estar lá. Se a nossa herança colonial ainda hoje valoriza um jeito só de ser, uma forma só de conhecimento, aquela europeia, estadunidense… a escola, mais do que reproduzir a sociedade, foi historicamente um instrumento para espalhar, fixar essas ideias, no formato e nos conteúdos também. Mas é espaço de alma molinha ainda, então cabe muito sonho, novos jeitos de pensar e saber. As crianças e adolescentes têm muitas opiniões e soluções e a ocupação era uma vitrine gigante disso também. Sente só a força do depoimento da Ana Júlia, estudante secundarista discursando já em 2016, na Assembleia Legislativa do Paraná.
[20:45]
Ana Júlia | Participante das ocupações: Eu sou Ana Júlia, estudante secundarista do Colégio Estadual Senador Manoel Alencar de Guimarães. Tenho 16 anos e estou aqui para conversar com vocês, para falar sobre as ocupações. A minha pergunta inicial é: De quem é a escola? A quem a escola pertence? Nós não estamos lá de brincadeira. Nós sabemos pelo que nós estamos lutando. A nossa bandeira é a educação. A nossa única bandeira é a educação. Que futuro o Brasil vai ter se não nos preocuparmos com uma geração de pessoas que vão desenvolver senso crítico? O movimento estudantil nos trouxe um conhecimento muito maior sobre política e cidadania do que todo o tempo que nós estivemos sentados enfileirados em aulas padrões. Apesar de toda essa ridicularização, desmoralização, apesar de sermos ofendidos, apesar dos problemas que a gente vai enfrentar, a gente ainda consegue ter a presença da felicidade.
<<<<< Trilha Sonora: Chocalho >>>>>
[21:53]
Narração Luiza: A Ana Júlia fala numa entrevista que ela não estava muito preparada para fazer esse discurso não, e acabou improvisando com base nas conversas que aconteciam dentro das ocupações. Aqueles dias de convivência intensa que a Marcela também relembra aqui.
[22:07]
Entrevistada Marcela Reis | Atriz e participante das ocupações: E aí, como a gente tinha acesso à escola, tava com molho de chaves e tudo, a gente começou a descobrir, né, portais. E aí tinha uma sala, assim, perto da quadra, que eu nem sabia que existia. Era um laboratório de química, que a gente nunca tinha entrado. A gente descobriu salas com materiais, livros, cadernos, borracha, lápis, que estavam lá, não sei por quê. Fora, tipo, papel higiênico, gente, básico. Não tinha papel higiênico no banheiro mas tinha um lugar que estava cheio de papel higiênico. O que acontece quando a gente se apropria é que acontece. A gente se organizou para levar profissionais para dar aula, música, teatro, arte. A arte estava lá. Coisa que não tinha no dia a dia, por exemplo. Quando que tinha uma roda de capoeira na escola, no nosso dia a dia? Na sua escola tinha? Na minha, não. E não só isso, a gente levou uma vontade de estar ali naquele espaço, sabe? De aprender. Porque eu acho que talvez, na cabeça dos alunos, talvez a gente não gostasse da escola, a escola é um porre, estudar é um porre. Mas não é, não precisa ser. E eu acho que a gente descobriu isso lá, sabe? Estudar é mó gostoso. A gente só precisa achar um jeito que funcione para mim, que funcione para você. Porque essa estrutura não está funcionando, gente. E aqui na ocupação agora eu estou mais interessada em querer fazer as coisas. Quando a gente se sente parte da coisa, a gente cuida da coisa. Eu acho que foi um espaço de escuta. E onde tem escuta, tem transformação, né?
[23:57]
Entrevistada Flavia Bischain | Professora: A participação criativa deles na elaboração do currículo, entre aspas, do que eles queriam estudar, das atividades que eles teriam. E mesmo na organização, a coisa mais simples, como eles queriam deixar as cadeiras organizadas para uma determinada atividade, ou se não vai ter cadeira nenhuma e todo mundo vai sentar no chão. Mesmo que fosse um professor que já era professor da escola pública, que tivesse sido convidado aquele dia para dar aquela aula para eles, fez toda a diferença. Convidar os alunos a participarem desde a elaboração, não serem simplesmente executores de tarefa, como cada vez mais eles são, muda tudo na escola. Então, combinado com algumas outras coisas, eu acho que isso era um caminho importante que a educação, a ocupação mostrou e que o governo poderia ter se apropriado. Mas por que não faz isso? Porque implanta um projeto de educação que é exatamente o contrário, que é ensinar a subalternidade e não o protagonismo real.
[25:01]
Narração Luiza: O prédio era o mesmo, a cantina, os alunos, mas até a forma como se fazia um arroz era diferente dentro da ocupação. A professora Flávia tem razão, deve ter dado medo em muita gente, aquele bando de adolescente protagonista de suas próprias histórias e de seus próprios corpos. As ocupações das escolas falavam de tudo isso, e a gente se sentiu olhado e potencializado de fato pela primeira vez. E quem não pode ir com a formiga, né Marcela?
[25:33]
Entrevistada Marcela Reis | Atriz e participante das ocupações: A gente ficou muito tempo na escola, já fazia um mês que a gente estava na escola e a reorganização não foi barrada. E a gente falou, o que mais a gente vai ter que fazer? A gente está dormindo na escola. O Brasil inteiro está mobilizado. E aí o que a gente decidiu fazer? A gente decidiu fazer um trancaço que consistia em, cada um pegava uma cadeira da escola e fechava uma via. Aí a gente fez o primeiro trancaço. A gente fechou a Faria Lima com a Rebouças. Gente, caos. E não foi só de polícia, era motorista de ônibus descendo pra bater, trabalhador descendo pra bater. Porque o trabalhador tem que ir trabalhar, tem que chegar, o patrão não quer saber. E aí, a gente foi com essas cadeiras e virou meio que um aulão na rua. E não tinha só trabalhador batendo, tinha trabalhador interessado. Então, eu lembro que teve umas senhoras, têm foto também delas sentadas na cadeira da escola, porque elas falaram: Tá, então me explica aí o que está acontecendo. Então, a gente encontra de tudo, de tudo, inclusive o apoio da sociedade, não tem só a galera contra. A polícia chegou, mas eles queriam negociar, tipo, abre só uma via, uma faixazinha só, você pode dar uma desafogada? Não. Foi decidido em grupo que a gente vai ficar, a gente vai ficar. Aí começou a trancar em São Paulo inteiro. Todo mundo estava saindo das ocupações para trancar a rua. E aí, eu sempre falo que eu acho que foi nesse momento que a violência começou a ficar mais pesada. E aí, eu acho que os policiais falando, falando da violência, a gente tem que falar deles, que é tipo, eles ficavam putos, porque a gente não tinha medo. As agressões nunca começavam pela gente. Ninguém estava ali para bater em policial. Para quê? E aí, hoje em dia, contando isso, eu fico tipo, como que eu conseguia fazer isso? Porque hoje em dia eu não faria justamente por todas as coisas que eu vivi nas ocupações. Eu não faria igual. Porque foi nas ocupações que eu tive certeza, eu já sabia, mas foi nas ocupações que eu tive certeza que a minha vida não vale nada para eles.
[27:46]
Secundarista: Falaram que foi baseado em dados, mas alguém aqui foi ouvido?
Secundaristas em jogral: Nós queremos educação pública, gratuita, de qualidade, para todo ser humano.
Secundaristas cantando: Unificou, unificou, é estudante, funcionário e professor.
Cantoria em manifestação: Pisa ligeiro, pisa ligeiro, quem não pode com a formiga não atiça o formigueiro!
Secundaristas em jogral: A gente conseguiu! Conseguiu! Evitar! A integração!
Pronunciamento de Geraldo Alckmin: A nossa decisão de adiar a reorganização, de rediscuti-la escola por escola, com a comunidade, com os estudantes e, em especial, com os pais dos alunos.
[28:47]
Entrevistado Thiago Araújo | Co-fundador do Coletivo Prevenção Para Todes e participante das ocupações: Alguém vazou um áudio do Alexandre de Moraes, que na época era secretário de Segurança Pública, falando para os policiais e para os dirigentes que, independente do que os juízes tinham decidido, era para obrigar a desocupação, entrar com polícia, bater em estudante, era para dar um jeito e fazer a remoção, independente do que tinham decidido. Esse áudio foi para a mídia e aí eles começaram a vincular como algo super negativo, porque tinha uma decisão da justiça fazendo com que as ocupações fossem algo legítimo, o que era, e o secretário de segurança pública falando que não, que era para a polícia bater nos estudantes. E aí começou a cair a aprovação do governo Alckmin pela primeira vez. Então, uma coisa estava levando à outra, a população estava ficando puta. Não com o trancamento dos estudantes, mas com a não resolução por parte do governo. E aí, dias depois desses trancamentos, veio a vitória oficial que o Alckmin apareceu na televisão falando que o plano de reorganização escolar estava anulado, algo que até então era impossível, de acordo com eles.
[30:05]
Narração Luiza: Esse desmonte da educação, motivo de toda a luta de 2015, acontece ainda hoje. As peças desse jogo podem até mudar, mas aqui estamos relembrando o movimento de jovens que já sabia. É sobre a estrutura acima da escola. É sobre o modelo de educação pública que só prepara para o trabalho maçante. É sobre separar os saberes do corpo dos saberes da mente. É não olhar para a vida dos estudantes fora da escola. É sobre ignorar o conhecimento e a história negra e indígena que compõem o nosso povo, mas que raramente entram na sala de aula. É importante sim relembrar que essas mesmas pessoas, Alckmin, Alexandre de Moraes, que eram inimigos dos secundaristas, foram uma estratégia para livrar a gente daquele outro governo das eleições de 2022. Daquele governo federal de Bolsonaro, Damares, onde pinta um clima entre homens mais velhos e meninas de 14 anos, sabe? Aquele governo que fragilizou o Ministério da Educação e convenceu meninas grávidas de 10 anos a cancelar o aborto de direito depois do estupro. As ameaças aos estudantes hoje também têm nome: Tarcísio e Ricardo Nunes. Em São Paulo, nos últimos cinco anos, 152 escolas estaduais foram fechadas e desde 2018, mais de 3 mil turmas foram extintas. Você já teve uma arma de polícia apontada para a sua cabeça dentro da escola? Ali na ocupação, foi a primeira vez na minha vida que eu vivi isso.
[31:46]
Secundaristas em jogral: Manifesto aqui agora, nossa luta é nossa história e ninguém vai nos calar. E aí Tarcísio, o que você vai fazer?
Secundarista falando em manifestação: O que eu quero falar aqui é que ele não viveu o que nós construímos aqui na escola. Ele viveu? Ele não viveu!! [aplausos e batuques]. Eu digo não, não, não à intervenção!
[32:18]
Narração Luiza: A gente entende que tem muita criança e adolescente que nem sabe que isso rolou. E essa é uma estratégia colonial muito antiga, o apagamento da nossa história e da memória dos nossos corpos. Aqui, eu e a Marcela chamamos alguns secundaristas de hoje não só para ouvir o relato da nossa história, mas também para perguntar como é que andam as salas de aula dez anos depois das ocupações.
[32:42]
Entrevistado Bruno Souza | Professor do Ateliescola Acaia e Ativista pela Educação: Também tinha uma ideia, tem escolas que a gente não vai fechar, mas tem escolas que a gente vai tirar o período noturno. Que pra gente que é de quebrada tem uma grande importância. Se a gente olha pra questão de vazões escolares e faz esse recorte de gênero, os meninos deixam a escola porque precisam trabalhar pra contribuir nas contas de casa. E às vezes esse horário à noite era a possibilidade que ele tinha de chegar correndo em casa, pegar a mochila e continuar na escola.
[33:12]
Entrevistada Emilly Gonçalves Noronha | Secundarista atual: Isso de fechar salas do noturno é algo que estava acontecendo ano passado. Porque no Prisciliana, que é uma escola do Parelheiros, não tem ensino médio noturno. E queriam fazer isso no Leda também. Como as pessoas trabalham de manhã e fazem curso de tarde, a maioria, eles não conseguiam chegar a tempo na escola e muitos faltavam porque estavam cansados, tinha gente que chegava na segunda aula e até entrava, mas esse negócio de segunda aula meio que a minha escola proibiu, ninguém mais pode entrar em segunda aula, se você trabalha, se o seu ônibus quebrou, não tem oportunidade de entrar mais.
[33:55]
Entrevistada Diogo Carvalho | Secundarista atual: Nesse novo ensino médio que a gente está tendo, a gente está ficando privado de muitas matérias. Cada vez mais não se tornando pessoas pensantes, não se tornando seres questionadores, para tornar trabalhador, para rico.
[34:09]
Narração Luiza: O movimento estudantil no Brasil não começou nas ocupações e também não termina por ali, não. Alguns áudios que você vai escutar aqui são dos estudantes de São Paulo em pleno 2025, lutando pela permanência da direção das escolas. É importante fazer esse adendo. Enquanto a gente finalizava esse episódio, 25 escolas tiveram seus diretores afastados por determinação da Secretaria Municipal de Educação, com a desculpa de uma formação para esses educadores. Acontece que muitas dessas escolas e suas equipes são premiadas dentro e fora do Brasil e agora teriam um interventor no lugar da direção. Interventor. Palavra perigosa, né?
<<<<< Sonoridade de transição >>>>>>
Narração Luiza: O professor Bruno, que é um dos educadores do projeto Encrespados, nos apresentou alguns estudantes e também conversou sobre alguns desafios. A Emily e o Diogo, estudantes do extremo sul de São Paulo, relatam que, infelizmente, as mesmas ameaças seguem sobre os secundaristas até hoje.
<<<<< Trilha Sonora: Chocalho >>>>>
[35:15]
Entrevistado Ellie Ghanem | Professor de Sociologia da Educação: Meu nome é Ellie Ghanem, eu trabalho na Faculdade de Educação da USP e sou professor de Sociologia da Educação. Existe um modelo, uma forma predominante de educação escolar, não só no Brasil. Essa forma foi praticamente assentada na atuação dos jesuítas no período colonial e consolidaram essa experiência que se chama Ratio Estudiorum. É uma ideia de razão dos estudos. Em geral, o que a gente considera escola é isso. Confina a meninada num determinado lugar, regularmente, diariamente, submetendo a atuação dos adultos, uma atuação educacional direcionada, segmentada de maneira lógica nas séries, inclusive os prêmios, as provas, tudo isso e a disposição do tempo. Então, é certa forma de organização do espaço e do tempo, que condiciona as formas de relação.
[36:27]
Narração Luiza: Mestre, escrita, carteira, turno, sinal, série, prova. Esse modelo jesuíta do século XVI, citado pelo professor Eli, lembra de alguma forma a sua escola? Beleza, a gente entende que faz 300 anos que os jesuítas saíram do comando da educação por aqui. Acontece que em cada época um sistema econômico e um contexto social foram se utilizando do sistema colonial de educação, de saúde, de leis, de ciências, para manter a estrutura de sociedade como ela está, sem que nada mude.
[37:03]
Entrevistado Vagner Souza | Escritor e Educador: Eu sou Vagner, Vagner Souza, educador e analista institucional e metido a poeta. Desde 2003 eu venho trabalhando com criança e adolescente, com educação e não necessariamente em espaços escolares, né? Trabalhando em serviço de acolhimento para criança e adolescente e nas unidades da Fundação Casa. A profissão de professora, professor é o único que se você tirar do século XVIII e enfiar num colégio público, ele fica tranquilo, ele sabe onde ele está, ele sabe o que fazer.
[37:43]
Narração Luiza: Quando a ocupação das escolas públicas rompe com tudo isso, outros rios passam a fluir. Capoeira, Afoxé. As tecnologias negras e indígenas apareceram para fazer parte daquela construção de conhecimento. Mais do que isso, nós, os estudantes, a gente tinha sede e dissemos sim para tudo aquilo que já era nosso e finalmente ganhava reconhecimento e força naquele espaço. E aqui eu relembro com o Wagner um desses momentos.
[38:11]
Luiza Akimoto e entrevistado Vagner Souza | Escritor e Educador: O Ilú Oba, o Ilú OBa ocupou o Damy com a gente, né? Eles fecharam a rua do Canachiro e eu não conhecia o Ilú, eu não atravessava a ponte.
Vagner: Que lindo, né?
Luiza: Eu não ia para o centro. Eu não tinha acesso a essa cultura do Ilú Oba. E depois da ocupação que eu fui conhecer esse universo artístico, né?
Vagner: Enlouqueceu, né?
Luiza: Enlouqueci, mano. Mas aí, tipo, eu descobri que tinha uma ponte inteira pra se atravessar e que tinha um universo de coisas, artistas, teatro, música, que se não fosse a ocupação, talvez eu ia ter que conhecer mais tarde, né?
[38:42]
Trecho da música “Tempo” de Ilú Oba de Min tocando: Sabedoria pro Orí, caminhar o Aiê, sabedoria pro Orí, caminhar no Aiê, transcender com a força do amor…
[39:03]
Entrevistado Ellie Ghanem | Professor de Sociologia da Educação: Com todas as dificuldades, idas e vindas, essas muitas décadas do século XX até agora foram décadas de crescente inclusão dos grupos populares no sistema escolar. A partir de um modelo de educação escolar, na minha maneira de ver, é muito alheio, é muito deficiente em dois pontos cruciais. Um dos pontos eu chamaria de subjetividade. Essa nossa tradição de educação escolar é alheia às dimensões de sujeito, sobretudo, pessoal, pior ainda, de educação escolar se deu na construção de sistemas escolares como grandes aparatos burocráticos. A sua lógica é da impessoalidade. O outro ponto é o da atuação sociopolítica. A educação escolar não é concebida ao mesmo tempo como atuação sociopolítica. É uma espécie de suspensão da vida em que as pessoas estariam se preparando, supondo que escola é para criança, elas estão se preparando para a vida posterior. Então, ela não é uma atuação educacional que é, ao mesmo tempo, atuação local, de um aprendizado, que é intervenção. Eu vejo que são dois pontos que estão necessitando, dentro de uma visão, de certa visão de democracia, estão necessitando de um tipo de atuação de educação escolar que venha a fortalecer o sujeito pessoal, que dê valor à diversidade. Porque qualquer que seja, arrisco eu dizer, qualquer que seja a proposta pedagógica, ela fracassará, seja considerada mais tradicional, ou mais conservadora, ou mais inovadora, ela fracassará se ela não tocar, se ela não agir sobre esses dois aspectos cruciais.
[41:24]
Narração Luiza: A gente tinha 16, 17 anos e já sabia de tudo isso, professor. Talvez não com essas palavras, mas sim, a gente sabia que aquela lógica de escola não estava certa e que a proposta que vinha era ainda pior.
[41:38]
Entrevistado Vagner Souza | Escritor e Educador: Porque quando a gente pensa assim, esse controle de novo das escolas públicas, de não poder ir no banheiro, a origem dessa porra tem a ver com preparar pra ir pra fábrica, né? Porque na fábrica você não pode ir em qualquer momento. Às vezes a gente discute muito uma ideia assim, ó, ah, os direitos da criança. Tem que ser assegurado, mesmo, mesmo. Mas tem uma coisa que a gente fala, fala muito, discute até hoje, fala assim, é o direito a ser criança, mano. Cresci ali na Brasilândia Nos anos 80, anos 90. Fala assim, uma criança preta e aí você fala assim, ó de repente, você tá brincando e a mãe, de um jeito muito cuidadoso, afetuoso, mano, proteção total. Ela olha e fala: não corre! Porque ela tá vendo, já aquele olhar, ela já sacou a viatura vindo lá. Você vai entendendo logo porque você não pode correr, porque talvez né, você vai tomar um tiro. Ou você fala assim, desde muito pequenininho, não coloca, mano, capuz, mano. Não anda com a mão no bolso. Ao mesmo tempo, o que a gente tá dizendo pra essa criança? Não seja criança. Controle seu corpo. Não corra, não pula, não suba, não põe a mão aqui, não faça. Ih, mano. E o que nós estamos dizendo ao contrário, né? Na educação que leva em consideração o corpo. Que esse corpo tem que se expandir. Que esse corpo tem que ser alegre. Que esse corpo tem que ser criativo. A gente tá dizendo para esse corpo ficar preso. O outro é dono do seu corpo. Nós estamos dizendo que, por uma parte das infâncias, esse corpo não pertence a ela. E aí, uma vez que a gente disse isso, está aberto a possibilidade para qualquer tipo de violência. Porque ela não se sente mais dona desse corpo.
[43:22]
Narração Luiza: Tá aí, esse é o centro da nossa discussão. As ocupações deram pra gente outra dimensão de existência, uma autonomia e responsabilidade sobre os nossos corpos que talvez sem esse movimento a gente nunca teria experimentado.
[43:36]
Entrevistado Thiago Araújo | Co-fundador do Coletivo Prevenção Para Todes e participante das ocupações: Eu acho que tudo que eu vivi na ocupação, de alguma forma, de fato, influencia quem eu sou hoje. Desde guardar os documentos, que é uma mania que eu criei na ocupação, até atualmente que eu escolhi cursar Direito. Mas eu acho que tem uma coisa que a ocupação traz de tão importante, não só na minha vida, mas na vida de todo mundo que participou da ocupação, é perceber o poder da educação na vida de qualquer pessoa. Eu acho que a ocupação despertou isso em mim, o que eu não aprendia na escola, eu aprendia por conta própria. E assim, com os desejos, a flor da pele, é algo muito doido da ocupação. Foi claro que durante a ocupação já sentia atração por meninos, mas ainda estava passando muito por esse processo de aceitação. E aí eu lembro que dentro da ocupação tinha um outro menino, Jeremias, que foi a primeira pessoa que eu conversei com ele e falei, eu acho que eu gosto de menino, e você? E ele, ah, eu também. Então, para mim, falando eu pessoalmente, era uma liberdade, eu estava vivendo a minha liberdade ao máximo dentro da ocupação. Porque não tinha minha mãe, não tinha igreja, e estava conhecendo tudo. Coisas novas, sabe? Outros corpos, outras pessoas, outras religiões dentro da ocupação, que eu nunca tive contato.
[44:52]
Entrevistada Marcela Reis | Atriz e participante das ocupações: A gente descobriu muita coisa. Na ocupação, eu pude navegar pela minha sexualidade. Eu conheci uma mulher na ocupação, ela estudava na Escola da Vila e ela estava ajudando também. Eu me apaixonei completamente pela Joana, me apaixonei completamente. E eu vivi um romance na ocupação. Ela dormia comigo na ocupação. E eu lembro de acordar de madrugada, tipo, com um barulho de sirene, e eu lembro de eu acordar assustada e ela me abraçar. Em uma semana, uma adolescente que era completamente quietinha na escola se transformou numa deusa. Rolou uma transformação, gente, na escola muito louca. Eu acho que eu me senti eu mesma pela primeira vez na ocupação. E não só eu, a maioria das minas. A maioria das minas. E a gente conversava sobre o feminismo que estava super em alta na época, que tinha começado a falar mais ou menos naquela época, sabe? Tipo, os machos fazendo um monte de escrotice e a gente indo lá e trocando ideia.
<<<<<< Sonoridade de manifestação de Secundaristas nas ruas >>>>>>
[46:10]
Entrevistada Flavia Bischain | Professora: Eu acho que uma das grandes lições das ocupações das escolas foi justamente o quanto a nossa luta é capaz de alcançar conquistas. A outra lição é que a gente precisa de saltos organizativos também, porque a luta é muito importante, mas ela sozinha não vai resolver. Então, qual foi o problema depois da ocupação? Os estudantes fizeram uma coisa muito interessante, espontânea ou não, mas criativa, enfim. Depois voltou, as coisas voltaram meio que ao normal, sem esquecer essa lição, essa memória, essa vitória, mas a escola voltou ao seu funcionamento. E esse projeto de educação que a gente quer, que eu já aponto aqui, que é uma educação não parcial, só voltada para o mercado de trabalho, mas uma educação completa, voltada para a formação, para o desenvolvimento cultural, social, com conhecimento socialmente referenciado, uma educação ligada ao mundo do trabalho, mas não ao mundo do trabalho capitalista, não ao trabalho precarizado, mas o trabalho como a possibilidade de emancipação, o trabalho como fazer humano, como a construção. Eu acho que esse projeto de educação está cada vez mais distante do que o que está sendo implementado. Mas a gente não pode abrir mão dele, entendendo que, para conseguir uma educação essa, de qualidade, nesse sentido que estou apontando, você precisa ter um projeto de sociedade.
[47:50]
Narração Luiza: Na prática mesmo, o desmonte da educação retira a construção de uma subjetividade diversa nos estudantes, impossibilita experimentações e discussões naquele espaço. Essa estrutura vai deixar de lado as reflexões e conversas sobre o corpo, cidadania e responsabilidade coletiva. E é então essas transformações que a Marcela e o Thiago narram, ficam mais distantes de acontecer e a violência e a vulnerabilidade aumentam. A escola é com certeza um dos pilares de defesa da nossa luta contra o abuso em muitos sentidos. Os conteúdos podem formar consciência sobre o direito de dizer não. Ela é um espaço de teste para o certo e para o errado das relações, para limites e também construções conjuntas. Mas a escola também é a principal porta de entrada para um pedido de ajuda. E tem que ser, né? É um espaço que reúne os adultos de confiança e encaminha o socorro quando ele é necessário. A escola forma o adulto do futuro. Já pensou se não existissem mais abusadores? Mas se ela não está formando o corpo e o indivíduo empoderado, se ela não está enxergando o todo, nem escutando o pedido de ajuda, e aí? As escolas seguem e lutam. E você, que caminhou com a gente até aqui, nessas memórias negras, indígenas e periféricas das ocupações, você vai escolher estar de que lado? Vem pro lado da escola pública, dos estudantes, das crianças. A ocupação pode até ter outra cara agora, mas ela ainda tá lá. Aparece na escola do seu bairro pra ver.
<<<<<<< Funk cantado por Secundaristas >>>>>>>>
[50:30]
Narração Luiza: Fica aí com a gente, que no próximo e último episódio falaremos de território digital e suas armadilhas e resistências. . . . . .
[51:08]
CRÉDITOS
Narração Luiza: Produção de Heloisa Feliciana. Coordenação de pesquisa de Alexandre Kishimoto. Desenho de som, mixagem e finalização Luiza Akimoto. Trilha sonora de André Riugi e Luiza Akimoto. Estúdio de captação Estúdio Zero. Comunicação de Estúdio Verbo e design de Diego Garcia. Nossos entrevistados foram Flávia Bischain, professora da Rede Pública Estadual de São Paulo e coordenadora da subsede Oeste Lapa da POSP. Marcela Reis, atriz e participante das ocupações de escola da Primavera Secundarista de 2015-2016. Thiago Araújo, cofundador do coletivo Prevenção para Todes, membro do Fórum Paulista de Saúde da População Negra e participante da ocupação de escolas da Primavera Secundarista de 2015 e 2016. Bruno Souza, professor do Ateliescola Acaia, ativista pela educação, pedagogo e cofundador do Encrespados. Emily Gonçalves Moronha, Diogo Carvalho e Sara Miller, estudantes secundaristas do terceiro ano do ensino médio. Elie Ghanem, professor de Sociologia da Educação na Faculdade de Educação da USP. Vagner Souza, escritor, cofundador do Sarau da Brasa e educador e analista institucional. E Mestre Julião, mestre de capoeira, educador da Fábrica de Cultura de Sapopemba e Fábrica de Cultura Tiradentes. Nesse episódio, utilizamos trechos de áudio de reportagem de Caio Castor, Brasil de Fato, Esquerda Diário, Vice, Intercept Brasil, disponíveis no YouTube, e trechos de áudio de cobertura de manifestações de Wanderson Cristiano de Souza, disponíveis no YouTube, e do Instagram da professora Flávia. A Cria Coragem é uma plataforma idealizada por Elisa Bracher e Ana Cristina Cintra. Nos nossos canais você pode conhecer mais conteúdos e se juntar a nós na luta pelo fim do abuso sexual contra crianças e adolescentes. Nosso site é o criacoragem.com.br e o nosso Instagram é @somoscriacoragem. Obrigada e até a próxima!